MUDANÇAS EM AÇÃO

 Marcela Bertelli, antropóloga e produtora cultural

“Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes. Ou são os tempos, travessia da gente?”

(G. Rosa. Grande Sertão Veredas, p. 571)

 

Meu trabalho é fascinante. Verdade que assumo, nunca pude reclamar de estar fazendo coisas que não gosto. Sou antropóloga, pesquisadora, atuo no campo das artes – sobretudo da música e da literatura, também da cultura tradicional e do meio ambiente. Participo ativamente, também, de diversos espaços de construção das políticas públicas dessas áreas. Tenho a oportunidade de conhecer pessoas e lugares que me trazem tesouros e ao mesmo tempo me escancaram necessidades sem medidas. Num país imensamente diverso em termos culturais, sociais, étnicos e ambientais, e por isso mesmo tão cheio de desafios, tudo me provoca, me impele e me desloca do chão.

Mas em 2016 alguns fatos foram incisivos e me colocaram novas perguntas. Não que a crise econômica fosse uma novidade pra mim, até porque sou de uma geração que nasceu e cresceu nela. Mas havia muitos fatores novos, sendo o primeiro deles evidenciado por um caminho pessoal e profissional já percorrido, que me fazia (e faz) viver as circunstâncias com os desafios deste chamado “presente”. “Como é possível que certas coisas, reconhecidas pela razão como tão evidentes em um determinado momento, possam, depois, não ser mais evidentes? Porque a liberdade do homem é sempre nova!” (Julian Carrón, entrevista concedida para a revista Jotdwon, 2017).

Já sabia o que fazer para responder algumas necessidades impostas pela crise, como reduzir as despesas domésticas, reduzir a estrutura de minha empresa para cortar custos fixos, assumir mais funções, sacrificar as férias, permanecer com o carro velho, etc. Mas, além disso, havia algumas coisas que me provocaram e são as que pensei em compartilhar com vocês.

 

“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”

(G. Rosa. Grande Sertão Veredas, p. 85)

As coisas que vivo, pessoais e profissionais, estão muito vivas dentro de mim e ajudam a moldar, de certa forma, o meu olhar e meu caminho. Tenho entendido, com a ajuda de amigos, dos conteúdos que as artes me oferecem, das pessoas que encontro percorrendo comunidades e executando projetos, que a palavra “caminho” é um enorme tesouro. Gosto ainda mais da palavra Travessia porque ela me é mais familiar. Mas isso não é apenas um elemento poético de pensamento. Tem me feito reconhecer a beleza histórica dos acontecimentos do mundo, do trabalho realizado até aqui, e perceber como tudo permanece como um recurso que me ajuda a caminhar também hoje. Tem sido, pra mim, elemento de afeição à realidade, que atrai a razão e amplia os sentidos de tudo o que acontece, me possibilitando reconhecer o ponto positivo de onde posso olhar as coisas com gratidão e esperança. Isso significa, por exemplo, que posso verificar nas experiências profissionais acumuladas ao longo do tempo a construção de relacionamentos consistentes aos quais posso recorrer, que tornaram possíveis o crescimento de muitas pessoas, entre artistas, produtores culturais, movimentos sociais e comunitários, que hoje me ajudam a reconhecer e comunicar qualidades profissionais que muitas vezes deixamos de perceber nos momentos de crise. Mas também compreender que a nossa dignidade não é garantida pelas coisas que conseguimos realizar, e sim pela construção do nosso próprio eu, por um ponto misterioso que constitui nossa vida, que faz a imensa Travessia da vida ser, toda ela, plena de significado. Assim, podemos amar a realidade e ver como tudo é a memória de um bem maior. Como diz Guimarães Rosa: “Existe é homem humano. Travessia.” (Grande Sertão Veredas, p. 875)

Entre os meus amigos do campo da cultura, tem existido uma tristeza profunda o perguntar-se sobre a própria utilidade, a própria capacidade artística de “ser interessante” aos outros. Uma humanidade ferida por não encontrar espaço para viver a relação com o mundo a partir daquilo que se é e do que somos capazes de criar e expressar. E, claro, de não conseguir que essa expressão seja remunerada como trabalho.

 

Essa foi também a grande pergunta que me rondou desde o ano passado, quando vi tantos anos de debates, de elaboração de políticas públicas para o setor cultural, caírem como cartas de baralho. Quando percebi que não havia previsão de trabalho remunerado (explico: trabalho sempre há, o difícil é ter aqueles que nos possam dar retorno financeiro...) e que, com isso, eu teria que mudar muitas coisas, talvez desistir de algumas.

 

“As sombras chegam quando essa luz se extingue por “fossos de credibilidade” e “governos invisíveis”, pelo discurso que não revela o que é, mas o varre para sob o tapete, com exortações, morais ou não, que, sob o pretexto de sustentar antigas verdades, degradam toda a verdade a uma trivialidade sem sentido.” (Hannah Arendt)

 

Então, para mim abriu-se um percurso de conhecimento novo sobre o que é verdadeiramente ser úteis, que valor tem o meu eu, que valor tem as coisas que sei, a minha formação, os dons que recebi, que valor tem o meu desejo, a minha sensibilidade, o meu olhar e toda essa energia, essa força que tenho para o trabalho. Era preciso não desprezar nada, não ter medo dos próprios sentimentos, do próprio desejo, da própria dor. Entendi que essa posição era, já, o despertar das possíveis respostas.

Sempre escuto falar que a crise é uma oportunidade. O mercado e o senso comum dizem isso com uma abordagem que não me interessa e que considero danosa, que é o aproveitamento da fragilidade dos outros em benefício próprio, seja ele individual ou dos negócios. Uma vez que faltam oportunidades para todos e que a economia se fragiliza, tudo perde o valor que possuía antes. Então se aproveita para explorar, especular, incentivar e gerar novos atrativos de consumo rápido. Também no legislativo, aproveita-se para ampliar privilégios, abrir concessões, fragilizar regras e romper processos de proteção os recursos naturais, enfim, abrem-se inúmeras brechas para maquiar ou oferecer respostas imediatistas, mas que podem representar danos futuros bem maiores ou esconder novas formas de produzir pobreza e desigualdade. Como disse o Papa Francisco num encontro mundial das famílias: “O consumo é que determina o que é importante hoje. Consumir relações, consumir amizades, consumir religiões, consumir, consumir... Não importa o custo nem as consequências. Um consumo que não gera ligações, um consumo que pouco tem a ver com as relações humanas".

 

Nesse sentido, aos poucos fui percebendo que a crise como oportunidade, da forma que fala o Carron, me atrai muito mais. A possibilidade de recolocar todas as perguntas na mesa, de experimentar o que é o essencial, de estar juntos menos por interesses e mais por um real desejo de bem comum. Ao contrário da tentativa de possuir as condições materiais para o trabalho, eu queria experimentar o maravilhamento pela beleza doada de um Outro, sem possuí-la, sem consumi-la, mas desejando participar dela, contribuir com ela, servir a ela.

 

Mudar significa tornar-se cada vez mais verdadeiramente nós mesmos.

Precisamos nos perguntar se aquilo que estamos vivendo nos retira do mundo ou nos faz mais necessitados uns dos outros. Podemos usar nossa liberdade para retirar-se da dimensão política do mundo ou para entender mais o que seja necessitar do outro. Nós já sabemos, na história, o que seja retirar-se do mundo. Ainda que encontremos espaços de proteção pessoal que nos permitam sentir-se relativamente seguros (e a igreja, o grupo de amigos, o clube  podem ser esses espaços), o que se perde é a dimensão mesma do mundo, o espaço insubstituível do “bem comum”.

 

Ao mesmo tempo, não é difícil reconhecer aquele lugar ou aquele grupo de pessoas que nos ajudam mais no caminho de aprendizado, de amadurecimento, onde aprendemos de verdade de onde brota a nossa sede e o nosso amor. É reconhecendo uma companhia que nos encoraja e nos lança na aventura do encontro com todos. Também sabemos reconhecer se essa companhia nos ajuda a maquiar fragilidades ou nos fortalece verdadeiramente. Se é espaço de construção de belos discursos ou se nos faz mais livres no diálogo com o mundo. Uma companhia que nos ajuda a descobrir a verdade de nós mesmos, uma afeição que não esconde nossos defeitos, mas nos afirma o ponto firme de onde começar sempre. Não um espaço de conforto, mas de provocação permanente da vida, uma amizade que também “faz exigências políticas e preserva a referência ao mundo.”

 

Então a primeira atitude foi de não me fechar “na crise”, ou seja, não estar definida por ela, mas sim por aquele ponto de esperança que já conhecia. E então comecei a encontrar as pessoas. Fiz uma lista de nomes. Pessoas com as quais já trabalhei antes e que conhecem minhas habilidades. Pessoas que admiro, ainda que façam coisas distintas do meu campo de trabalho. Pessoas que estão participando ativamente dos espaços públicos e aquelas que optam por não se envolver com eles, mas que vejo experimentarem uma consistência no próprio fazer.

 

Nos primeiros encontros, entendi que não estava sozinha nas coisas que indagava. E que mesmo aquelas pessoas aparentemente bem preparadas e estruturadas, experimentavam o sofrimento do que acontecia em volta, também necessitavam de companhia e de esperança. Percebi que precisávamos de algo muito simples: estar juntos para nos ajudar a olhar a realidade, tendo como ponto de partida aquilo que verdadeiramente nos atrai, a cada um em particular mas também, e por que não, juntos.

 

Dessa posição nasceu uma esperança renovada e oportunidades de trabalho (remunerado!!) se abriram. Coisas que não esperava fossem acontecer, projetos que não previa, novos relacionamentos – ainda que em uma escala pequena e até discreta perto de tantas necessidades que eu gostaria de poder responder.

 

O papel da antropologia é oferecer um olhar

Talvez para um outro tipo de profissional as coisas que vou dizer sejam simplistas, ingênuas ou até tolas. Mas para mim elas importam e influenciam no modo de estar diante da realidade cotidiana.

 

No dia a dia do meu trabalho eu encontro muitas coisas belas, verdadeiramente belas, mas cheias de urgências, de necessidades: um agricultor rural, já idoso, que me mostra numa só mão os sete tipos diferentes de feijão que ele colheu da pequena roça no quilombo onde vive, dependendo de água da cisterna fornecida pela prefeitura. Esse mesmo agricultor chora ao contar de quando a comunidade se reunia para cantar benditos e cuidar de suas sementes. Um grupo de mulheres fiandeiras, que antes cantavam juntas enquanto batiam o algodão para dele fazer fio, mas que substituíram o canto pela TV ligada, tornando-as meras espectadoras de outras culturas. A beleza comovente das músicas de um grande compositor, já doente, cujo registro em partituras se torna necessário para que não se perca na história do descaso. Outro artista, também criador de bodes na caatinga, que me mostra os sinais que a natureza dá quando a chuva se anuncia: animais que parem antes da hora, frutos que caem dos pés em maior quantidade, formigas que correm. Ele tem certeza de que Deus nos ama e que a resposta à seca de seis anos virá do céu. Esse mesmo artista não tem shows agendados e me diz, com dor, que tem medo de morrer sem ver sua obra gravada. Ou um outro lugar no extremo norte do país, onde antes era floresta e hoje, com o desmatamento e o garimpo, o que se vê é ganância, violência, sexualidade precoce, pobreza e perda da fé. Abundância e necessidade. Um mundo que é espelho, onde beleza e expressão de vida são uma coisa só.

 

Diante dessa realidade ao mesmo tempo tão imensamente bela e desproporcional, cheia de necessidades de ação (sim, ação – projetos, recursos, investimento, atenção), tantas vezes na estrada me peguei comovida, em lágrimas, pedindo a Deus que cuidasse da beleza do mundo para que os homens não se esquecessem de si mesmos, sentindo-me tão pequena diante de tudo o que encontrava!

 

Não é que agora me sinto maior e mais capaz de responder, de mudar as coisas em volta, de conseguir soluções. Mas entendi que aquele olhar que me educa a mirar o mundo, que me doa as lentes para enxergar a realidade com toda a sua Beleza infinita, no que tem de bom e de mal, aquele olhar que me comove e me faz pedir, é o que tenho de melhor a oferecer. Minha utilidade é ser cada vez mais eu mesma. “Senhor, peço-te um favor: Por favor, não deixes de me desafiar.”

 

Dou um exemplo: Coordeno a edição e publicação de uma revista que tem por objetivo promover a preservação ambiental. Poderíamos partir de vários pontos, escolher muitas abordagens. Colocar os problemas é um deles (penso que seja importante!), mas a mera crítica não ajuda a tornar atraente a questão ambiental. Ninguém muda porque é criticado pelo que faz de errado, mas pela descoberta de um bem maior, por um maravilhamento. Um agricultor rural pode descobrir a beleza do rio que passa ao lado, pode conhecer o que existe em cada vereda, saber como a água é gerada a partir de certas condições ambientais, se essa realidade lhe é “reapresentada” pela Beleza, pela potencia criadora do mundo. Mais ainda, se essa realidade lhe for apresentada por meio da sua própria beleza de homem, com suas expressões, sua cultura alimentar na relação com aquele bioma, sua fé mesclada à história de seu território. Então esse agricultor, que antes desmatava tudo em volta, pode maravilhar-se de si mesmo e do lugar onde vive, e então desejar proteger aquele lugar, aquela cultura, aquelas tradições.

 

Essa publicação, para a nossa surpresa, acabou sendo premiada e continua a ser produzida com a ajuda da própria comunidade, das pessoas que a acolheram como instrumento de comunicação de si mesmas, da beleza que elas são e daquele território. Foi a resposta, amorosa e potente, que pudemos oferecer apenas com o nosso olhar.

 

Deixo aqui uma frase da Hannah Arendt que gosto muito: ”mesmo no tempo mais sombrio temos o direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e freqüentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra.”

Pergunto ao Bernard:

Como podemos nos ajudar a viver uma companhia que nos impulsione a abrir processos mais do que buscar resultados? Como nossa amizade operativa pode ser um lugar aberto ao mundo?

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