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O Bem Comum, Fundamentos e Perspectivas

Por Bernhard Scholz

CONSTRUINDO O BEM COMUM-R02
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Bernhard: Bom dia! Obrigado pelo convite. Se no primeiro Fórum que nós fizemos eu soubesse que ia chegar até o 7º, eu teria aprendido português. Mas eu nunca poderia imaginar isso, portanto precisamos de uma tradução, sinto muito. Eu gostaria de introduzir esse encontro com algumas reflexões que têm por finalidade tornar evidente aquilo que, de alguma forma, nós já sabemos, mas que nós arriscamos a considerar óbvio. Porque é muito importante entender de onde nasce o bem comum e quais são as implicações de um bem comum que nasce bem. Porque muitos problemas que nós temos hoje, em âmbito social, econômico e político, nascem de um mal-entendido bastante comum. Isso será objeto da discussão que nós faremos depois. É muito importante, exatamente nessa situação em que nos encontramos no Brasil, na América e em muitos países da Europa, refletir muito bem qual é também o nosso papel pessoal, o nosso papel como associação nesse contexto de mudança de época.

Vamos iniciar com uma pequena reflexão simples: por que nós estamos aqui? Por que nós viemos a este fórum? Porque cada um de nós tem um desejo de fazer o bem crescer na sua pessoa e nas relações em que vive. Porque cada um de nós tem certeza de que o diálogo e a comparação, portanto uma relação fecunda, são necessários para que esse bem possa realizar-se da melhor forma possível. E também porque cada um de nós está consciente de que um bem que realmente seja um bem é sempre caracterizado por uma propensão a compartilharmos esse bem com o maior número de pessoas possível. Sem essas razões seria uma estupidez vir aqui nesta manhã. Isso quer dizer que de algum modo cada um de nós procura relações, procura lugares onde participar ativamente da criação do bem, seguindo um desejo que encontra dentro de si. É muito importante entender essa origem humana que cada pessoa vive. Porque se isso não for claro, tudo muda de lugar, transfere-se para uma aplicação de regras morais, éticas ou sociais, mas começa a faltar o sujeito que cria o bem.

Nessa breve reflexão sobre porque nós estamos aqui, parece que o bem é necessariamente ligado ao desejo da pessoa, que está ligado à relação pela qual o bem se realiza, porque sem essa relação o bem não existe. E existe uma tensão para alargar o bem, para compartilhá-lo. Essas são três características fundamentais. Não é possível dar uma definição exaustiva do que seja um bem. Porém, cada um de nós, de algum modo, tem uma evidência do que seja se for fiel exatamente a esse desejo que encontra dentro de si; porque, de algum modo, o homem procura sempre o bem naquilo que faz, naquilo que realiza. No fundo, cada um de nós sabe se aquilo que faz leva a um bem, a um bem menor ou a um mal. Depois, o mistério – que não é o tema dessa manhã – é que, tentando fazer o bem, podemos fazer o mal. Mas prevalece, de algum modo, em cada pessoa, o desejo de bem, e é daí que nós partimos.

Agora eu gostaria de dar alguns exemplos para evitar que isso seja entendido de uma forma abstrata. Pais que educam os próprios filhos para uma abertura ao outro, ao mundo; voluntários que investem o seu próprio tempo para ajudar outras pessoas em atividades esportivas, da cultura, da vida associativa, da política: onde brotam elementos de gratuidade, escolas que colocam no centro o bem dos jovens – o que não é absolutamente óbvio: que uma escola tenha no seu centro o bem do jovem e não a vida do professor, já é algo de muito bom e positivo. Toda obra social que coloca no centro o bem dos destinatários, tudo isso são experiências bem conhecidas. Eu acrescento que também existem empresas que investem para criar um trabalho digno para fazer inovações sustentáveis, ecologicamente e socialmente. E depois também há muitas associações como a nossa ou aquela que vocês representam, que estão aqui, que procuram enfrentar todos os problemas e desafios sociais, econômicos, políticos, cada um conforme a sua própria característica. Há ainda políticos que procuram utilizar o seu próprio poder para sustentar todos os sujeitos sociais e econômicos que existem. Ou seja, que colocam o poder político a serviço. Certamente nós vamos falar a respeito disso, depois.

Em tudo isso se evidencia que, quando as relações são colocadas dessa forma, se são superados o individualismo, a autorreferencialidade, os interesses particulares, isso cria para as pessoas que participam dele, com certeza uma maior dificuldade, porque é mais cômodo viver sozinho, de uma forma individualista; mas isso não traz nenhuma satisfação, por um aspecto que depois eu vou sublinhar. Nesse sentido, o bem comum nasce da pessoa que cria um bem. E criando o bem, cria ao redor de si condições favoráveis para que o bem possa crescer. Por exemplo: se eu conduzo uma empresa de tal maneira que os meus colaboradores possam trabalhar de forma digna, que eu ajude a iniciativas no meu território e invista o lucro que eu tenho para o crescimento da empresa, permito às pessoas que trabalham comigo que façam uma experiência de bem, de utilidade. É muito provável que um colaborador que faça essa experiência ao redor de si, se comprometa numa sociedade esportiva para fazer os jovens crescerem ou então que ele se candidate para o conselho da prefeitura ou que ele ajude uma pessoa que está em dificuldade. E as pessoas que, ao seu redor, são beneficiadas, por exemplo numa atividade esportiva, por essa experiência, por sua vez criarão outras experiências positivas. Essa reflexão é muito importante porque o bem, uma vez que ele começa a entrar na vida pessoal, social e econômica, começa a se multiplicar.

E por isso é tão bonita a definição que o Concílio Vaticano II deu, de bem comum – não existem muitas definições, são pouquíssimas. Esse termo, bem comum, foi introduzido por Aristóteles e depois retomado por Tomás de Aquino – essa definição diz que bem comum é o conjunto das condições da vida social que permitem tanto aos grupos como a cada membro alcançar de forma mais plena e facilmente a própria perfeição. Uma vez que a pessoa alcança uma maior perfeição, como diz aqui, ao redor de si criará o bem. Então é muito importante não olhar o bem comum como uma coisa estática. O bem comum é algo dinâmico, é uma partilha contínua, um crescimento contínuo. Isso nos diz também que não é, antes de tudo, a aplicação de uma ética ou uma moral, mas é a vida de pessoas que se comprometem, através dos relacionamentos que vivem, a fazer emergir o bem que encontram. Esse aspecto é dinâmico e decisivo, porque caso contrário nós temos a ideia de um código moral, ético, social, que também existe, mas não é a coisa essencial.

Agora eu queria dar um exemplo, porque nesta semana estão aqui presentes vários representantes de obras da Itália que vieram encontrar pessoas das obras sociais aqui do Brasil. E eles trabalharam juntos por uma semana. Neste período, eles foram ver as obras em vários lugares – Salvador, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro – depois fizeram dois trabalhos de formação. Durante esse tempo ficou evidente que essa comparação é indispensável para que o bem apareça como bem. Por que eu insisto nisso? Porque cada um de nós parte com uma hipótese, com uma ideia daquilo que pode ser útil, daquilo que pode ser justo; mas inevitavelmente, se a pessoa está sozinha, ela arrisca perder-se. Arrisca que a sua ideia se torne uma imposição. Arrisca que a sua ideia se torne uma ideologia. Portanto, todos nós temos necessidade de nos comparar, de nos confrontar para que surja com maior clareza, com maior lucidez, com uma incidência maior, aquilo que é bem. Portanto, esse trabalho que nós fizemos foi uma das coisas mais interessantes: que, na comparação, cada obra redescobriu – com maior clareza e com maior fervor – a própria identidade, a própria origem. Porque ao longo do caminho é muito simples que nós percamos a consciência da origem e que a gente dê isso por óbvio nas coisas que fazemos. Porque trabalhando num dia normal, é muito fácil que a gente perca o objetivo pelo qual trabalhamos. E começamos a fazer tarefas, mas não trabalhamos mais. Assim também uma obra arrisca se perder se não entra numa comparação contínua. Ela se torna autorreferenciada. Portanto, esse confronto, essa comparação, é essencial para que o bem comum permaneça como um bem comum.

Eu abro um parêntesis que agora não é necessário, mas eu gostaria de destacar. E também apareceu nessas semanas, hoje de manhã quando eu vi as pessoas se encontrando. Quando uma pessoa procura o bem, deseja o bem, logo aparece uma beleza, que nasce da forma como as pessoas se olham, que se vê na tentativa de tornar o encontro bonito, ordenado, harmonioso, o cuidado de cada detalhe. Quem procura o bem, torna a vida mais bonita, faz brotar a beleza. E essa beleza, por sua vez, torna o bem mais atrativo. Eu me lembro que certa vez eu fui numa favela na Colômbia, onde havia uma escola e naquela escola eu encontrei a senhora que cuidava da limpeza. Comecei a falar com ela da maneira como a gente conseguia se entender, e ela me disse que é muito importante que a escola seja bonita e limpa, para que os meninos tenham gosto para aprender. Ela era uma mulher analfabeta, mas ela tinha entendido melhor do que muitos professores que ensinavam naquela escola.

Isso tem como consequência que o homem, nessa beleza, nessa relação de bem, descobre a si mesmo de uma forma mais autêntica, porque brota com maior força o desejo de bem que ele tem dentro, que é uma coisa inata, e por isso se torna mais verdadeiro. E assim, a relação de bem faz surgir a beleza e a verdade, esse nexo maravilhoso que existe em cada um de nós, entre o bem, a beleza e a verdade. Não é possível um bem sem beleza e sem verdade; não é possível haver uma verdade sem bem e sem beleza, porque a beleza tem muitos aspectos materiais, mas tem um aspecto imaterial que são os olhares, as relações, que são simplesmente uma coisa bonita, verdadeira, autêntica.

Agora vamos ver algumas condições para que esse bem comum possa crescer. No nível pessoal, uma condição é que a pessoa assuma uma responsabilidade de forma livre, porque cada um de nós responde inevitavelmente aos desafios que a vida coloca à sua frente. Não pode não responder. Mas quando essa resposta se torna uma responsabilidade? Quando se tem no coração o bem que vê. Quando a procura do bem se torna algo predominante. Então isso se torna responsabilidade. Eu digo “a procura” porque muitas vezes nós procuramos, mas não realizamos ainda, mas a procura já é um ato de responsabilidade. No nível social – e a gente vai voltar a falar sobre isso – é indispensável (e eu destaco essa palavra, indispensável), é indispensável que nasçam relações estáveis, sistemáticas, duradouras. Portanto, associações, grupos, movimentos. Porque nós vivemos numa época onde as relações perderam a estabilidade, onde tudo é casual, improvisado, se desvanece, passa, tudo muda, tudo é seletivo. Essa não-estabilidade não permite assumir responsabilidades. Ou seja, eu procuro para mim aquilo que me agrada nesse momento, mas não procuro aquilo que realmente me corresponde. Portanto, relações estáveis são um chamado de atenção contínuo à verdade, de mim mesmo e ao meu desejo de bem. Depois, no nível político – já comecei a acenar com um embasamento político que favoreça esse crescimento, essa difusão de bem a partir de baixo. Eu aceno aqui, depois nós vamos aprofundar. O Estado não pode criar o bem; o bem nasce da pessoa, dentro da sociedade civil.

De fato, agora eu queria fazer uma citação que é muito importante para mim. Não porque a pessoa que falou essa frase seja um alemão, é que objetivamente ele falou uma coisa muito inteligente. Eu vou ler a frase: O Estado liberal secularizado, ou seja, o nosso Estado moderno, vive de pressupostos que não é capaz de garantir. Este é o grande risco que ele assumiu para si, por amor à liberdade. De um lado, ele pode existir como Estado liberal, só se a liberdade que ele garante aos seus cidadãos se regular a partir de dentro. Ou seja, a partir da substância moral do indivíduo e da homogeneidade da sociedade. Por outro lado, se o Estado tenta garantir por si só essas forças reguladoras internas com os meios da coerção jurídica e do comando autoritário, ele renuncia à própria liberalidade e recai num plano secularizado, naquela mesma instância de totalidade da qual saíra com as guerras civis confessionais. Dizendo de outro jeito: se não existe uma sociedade civil voltada para o bem comum, ou o Estado se torna anárquico ou totalitário. Não tem uma terceira via. Esse é o problema que nós vivemos hoje. Vou dar um exemplo: imaginem uma escola com muitas crianças que vêm de situações de dificuldade, como é muito comum hoje em dia. Nós precisamos de professores que tenham no coração deles o bem daqueles meninos, que se dediquem a eles com tudo de si, para o crescimento daqueles meninos, que empenhem toda a força moral, toda a inteligência, todo o bem que eles têm dentro de si para que aqueles meninos possam crescer melhor. A força desse professor, o Estado pode criar isso? Não. Portanto, a verdadeira pergunta é – e aí a gente chega à pergunta crucial – onde e como se gera a substância moral e a homogeneidade da sociedade da qual falava essa citação, sem a qual é quase impossível a realização de um bem comum? Então a pergunta é generativa, não é aplicativa. O que gera um professor assim? O que gera um pai e uma mãe que têm no coração o bem da criança, no sentido verdadeiro do termo? O que gera um empresário que gera uma empresa assim? Essa é a verdadeira pergunta. O resto são consequências.

E claramente nós podemos dizer, pela própria experiência, que a Igreja e as outras denominações religiosas são sujeitos dessa geração. Mas eu faço uma observação: não a Igreja enquanto tal é um corpo intermediário nesse sentido, mas quando ela gera sujeitos que ao seu redor criam outros sujeitos, associações, grupos e assim por diante. As famílias – mas falo das famílias que são carregadas por essas relações, senão a família sozinha naufraga na tempestade, é impossível ficar de pé sozinha. O voluntariado – que por sua vez também precisa ser sustentado. Também coloco aqui as obras sociais, as escolas, as empresas..., mas a verdadeira questão é se todos esses sujeitos têm uma relação entre si, se de algum modo eles estão ligados entre si. E o modelo mais difundido para esse vínculo são as associações, os movimentos e os grupos. Aquilo que me interessa destacar não é a forma, mas a substância; que um sujeito é sujeito enquanto vive relações que o regeneram continuamente. Porque a solidão é cômoda, mas é mortal. Para que uma pessoa seja fecunda, ela precisa de relacionamentos que a regenerem. E onde eu mesmo faça a experiência de poder contribuir para a regeneração de outros, porque é uma coisa recíproca: eu gero e sou gerado. As relações são recíprocas: eu recebo e eu dou; eu dou e eu recebo. O homem sem relações não pode ser ele mesmo. Isso é o que nós esquecemos, nós pensamos que o homem sozinho e o Estado, que regulamenta tudo, seja a solução dos nossos problemas, e hoje nós vemos que não é assim.

Portanto, não é o problema de encontrar regras. Também isso se pode fazer, mas é muito secundário. A parte primária é descobrir o corpo intermediário, isto é, a experiência que nós fazemos nesta manhã e que faremos hoje e amanhã, como momentos de experiência fundamental, fundadora, para que possa renascer uma sociedade civil capaz de gerar uma política. Porque a primeira tarefa de um corpo intermediário é a valorização das relações como fontes de apoio à pessoa individualmente, no seu desejo de contribuir para melhorar e aprofundar a vida cultural, social e econômica. O que faz um empresário sozinho na frente dos tantos problemas que existem, se ele não tem a possibilidade de se comparar, conhecer e compartilhar boas práticas no âmbito de competência? O que faz um arquiteto que tem um escritório, precisa enfrentar todas as implicações das leis, da ecologia, se ele não tem possibilidade de relacionamento com outros colegas? Estou dando exemplos simples, mas são decisivos. Formar-se e atualizar-se profissionalmente, apoiar pessoas que vivem em situações de dificuldade. Quem de nós não encontra pelo menos uma vez por semana uma pessoa que vive uma situação de dificuldade? E como podemos responder a isso se não tivermos ao redor relacionamentos nos quais introduzir aquela pessoa e ajudar, promover a educação dos jovens, etc.

Aqui eu queria abrir um parêntesis, porque outro dia se tornou presente para mim uma coisa: que talvez na história, nós nos encontremos pela primeira vez numa situação em que a primeira preocupação de uma geração não é a próxima geração. Porque ao longo da história a primeira preocupação de uma geração era criar uma vida melhor para a próxima geração. A nossa é a primeira geração que está mais preocupada consigo do que com o futuro. Se vocês quiserem o exemplo que demonstra isso, vejam a “dívida pública” dos países. Sem pensar, nós criamos um fardo para as futuras gerações - em vez de reduzir a dívida nós a aumentamos. Isso aconteceu porque nós pensamos em nós mesmos e não neles, e esse problema é tão distante de uma partilha; isso é tão incompreensível e essa incompreensão diz o quanto nós nos afastamos culturalmente daquilo que humanamente seria a coisa mais evidente. Mas esse é só um sintoma, existem outros. É o mais evidente. Também o descuido em relação aos jovens. Como vivermos continuamente sem pensar que a primeira tarefa que eu tenho é criar uma vida melhor para os jovens? Isso é só um exemplo.

Começo a me aproximar da conclusão. Tudo aquilo que eu procurei dizer, mostra que o problema é que a pessoa deve fazer experiências de ser um sujeito. De fato, o corpo intermediário, a associação, grupos, movimentos, qualquer grupo intermediário, antes de tudo, tem como problema não a representação mas tornar possível que uma pessoa faça a experiência de ser sujeito. Que eu descubra a mim mesmo como sujeito, dentro de uma reciprocidade. Que eu incida no mundo, que exista um nexo entre a minha vida e a vida do outro, um nexo entre mim e o outro ao meu redor. Ter a consciência de que se eu fizer uma coisa ou se eu não fizer causa um impacto, que minhas ações tem uma incidência na vida dos outros. Que eu não sou neutro, mas eu estou em relação, e nessa relação o mundo incide sobre mim e eu sobre o mundo. Portanto eu preciso julgar criticamente como o mundo incide sobre mim, mas avaliar como eu incido sobre o mundo. Criticamente, no sentido de geração de positivo. Eu devo compreender o que quer dizer como eu incido sobre a vida dos meus filhos, dos meus colegas, da associação. Não é uma coisa neutra.

Depois, quem é inteligente entende que não está à altura da tarefa que tem. E daqui nasce a verdadeira religiosidade. Porque essa é uma grande descoberta: descobrir que o limite nos fecha ou nos abre. Não se pode renunciar à responsabilidade, então o que fazer? Precisa ficar aberto. Deve ficar aberto a quem ajuda a responder de forma verdadeira. Portanto eu insisto numa coisa: a questão do corpo intermediário é também uma questão de representação, mas, antes de mais nada, é um lugar de experiência positiva de si, para criar um mundo melhor.

Eu encerro com uma citação de Alexis de Tocqueville, um aristocrático que fez uma viagem aos Estados Unidos no século XIX para entender o que estava acontecendo nessa América. E ele descobriu que – a França naquele período era uma sociedade completamente estruturada com regras aristocráticas, e lá ele viu uma sociedade sem regras, chamada democrática - a única possibilidade para que essa sociedade tivesse um futuro eram as associações. E ele diz: nos países democráticos, a ciência da associação é a ciência mãe; ciência em termos de compreensão, não ciência universitária. Ou seja, entender isso é fundamental, porque o progresso de todas as outras ciências depende do progresso desta. Entre as leis que dirigem as sociedades humanas existe uma que parece mais precisa, mais clara do que as outras, e aí ele chega na parte mais importante: para que os homens permaneçam civis ou assim se tornem, é preciso que entre eles a arte de associar-se desenvolva e se aperfeiçoe na mesma proporção em que aumenta a igualdade de condições. Porque as relações nas sociedades aristocráticas são definidas no início: você nasce de um certo modo, nasce de uma certa maneira, são relações preestabelecidas. Nas relações democráticas essas relações não são preestabelecidas, mas elas precisam ser estabelecidas a cada dia, por cada pessoa. Isso não é possível sem que haja uma relação estável, livre, mas estável. Isso é uma associação. E daqui se entende que a dificuldade para viver uma relação – porque há uma dificuldade, é mais cômodo viver sozinho, entre si e si mesmo – a dificuldade é necessária para que nasça o bem comum, mas antes de tudo para que eu descubra a mim mesmo. Porque o homem descobre a si mesmo, descobre o bem de si e o bem que ele é – não que ele faz, mas o bem que ele é – somente dentro de uma relação. Mas relações que possuem uma finalidade, uma forma estável, isso é decisivo. Porque cada um de nós cresceu, se tornou aquilo que é, dentro de um percurso, dentro de uma estabilidade de percurso. Estamos aqui hoje porque nossa vida não foi improvisada. Não foi uma massa de casualidade. Então associar-se, assumir funções livres de forma que possam ser compreendidas é algo decisivo. Obrigado.

Fabiano: Bom! Nós é que agradecemos essa fala, Bernhard. E agora a gente vai ter a oportunidade de ouvir tanto o professor Rafael Marcoccia quanto Otoney Alcântara, advogado, falarem para a gente como eles estão vivendo, como eles estão percebendo, capturando, toda essa questão do bem comum. Rafael, gostaria de começar por você.

Rafael: Bom, em primeiro lugar bom dia a todos. Eu queria agradecer primeiro à organização da CdO pelo convite para estar aqui, de estar participando desta manhã de muita riqueza que o Scholz nos presenteou. Quando vocês me convidaram, vocês me fizeram uma pergunta: como você vive o bem comum no seu trabalho, como professor universitário, que também educa os meninos para isso e como esse trabalho o educa. Eu vou tentar responder dando um testemunho, contando como eu faço na universidade. Eu trabalho no Centro Universitário FEI. Só para contextualizar, para entender: é uma universidade católica filiada à Companhia de Jesus, então ela tem uma inspiração jesuíta. Ela oferece os cursos de Engenharia, Administração e Ciência da Computação, porém, apesar de ter esses cursos mais tecnológicos, ela sempre se caracterizou, nos seus 70 anos de história, por dar uma sólida formação humanista. Então, inserido nesse departamento de Ciências Sociais, durante todos os anos do curso, a gente oferece uma série de disciplinas. O objetivo final é justamente ampliar o olhar daquele que vai sair profissional de Engenharia, de Administração, para olhar para a sociedade e construir alguma coisa justa, verdadeira. Eu vou contar hoje especificamente como trabalho em duas disciplinas, que dou no segundo e no terceiro ciclo dos cursos, o percurso de um ano que eu faço com os alunos, que tem por objetivo justamente alargar esse horizonte e olhar para o bem comum.

Nos primeiros anos do ciclo universitário, atendemos, em média, em torno de 500 alunos, todo semestre. Então é um trabalho de massa, bastante cansativo, mas também eu acho bastante significativo. Só queria ressaltar que esse trabalho não é feito só por mim, também a Marli me ajuda bastante, a gente sempre se confronta e sempre tenta melhorar. No segundo ciclo, que é a disciplina de Filosofia, que é uma das disciplinas que eu dou, eu faço justamente o trabalho – durante um semestre – de tentar enfatizar com os alunos, tentar fazer um trabalho de autoconhecimento, para que eles identifiquem dentro de si justamente esses desejos de bem, de beleza de justiça, de verdade. E através das aulas, de discussões que a gente faz com eles, eu provoco: você quer trabalhar em quê? Que marca você quer deixar na realidade? Qual é o seu propósito de vida? E aí vamos trabalhando juntos ao longo de um semestre e aos poucos eles olham para si, olhamos para a realidade que está à nossa volta, olhamos para todos os desafios, problemas e beleza que tem a realidade, olhamos para tudo, e depois tentamos começar a pensar como podemos agir, como podemos melhorar a realidade que está à minha volta. Este é o trabalho em uma primeira parte, em um ciclo – estou reduzindo em um minuto o que eu faço em um semestre, só para entender. Mas eu queria dar ênfase no terceiro ciclo, que é quando eu começo a dar aula de ensino social cristão, que é diretamente ligado à Doutrina Social da Igreja e é onde começamos a apresentar para eles os quatro princípios fundamentais da doutrina social: o bem comum, a subsidiariedade, a solidariedade, e a dignidade da pessoa.

Mas não queremos que esse trabalho que seja uma coisa teórica, pois entendemos que a Doutrina Social da Igreja não é um manual que alguém um dia escreveu e que aplicamos de cima para baixo, não é um manual a ser seguido o manual; entendemos que a Doutrina Social da Igreja nasce da experiência concreta que a gente já faz e que já existe. Portanto não ficamos apenas na reflexão teórica, mas a gente propõe aos alunos irem a campo observar na realidade, descobrir na realidade aquilo que já existe dentro das obras sociais. Então além da reflexão teórica, que obviamente fazemos nas aulas, propomos para os alunos que eles façam um projeto de ação social em uma entidade do terceiro setor. Funciona mais ou menos assim: eles se reúnem no começo do semestre em pequenos grupos e escolhem dentro de uma gama, dentro uma série de iniciativas sociais do terceiro setor – que pode ser uma que está perto da FEI, pode ser uma perto da casa deles, pode ser uma em que eles já trabalham e conhecem – uma para trabalharem. A ideia é que eles, passem um semestre com eles, visitando-os periodicamente, entendendo, relacionando-se com eles. Primeiro fazem um levantamento, uma pesquisa de campo mesmo: quais são os seus valores, como aquela entidade nasceu, qual a metodologia, quais as fontes de recurso, enfim, fazem um levantamento geral das instituições e começam a ver qual a dificuldade que eles têm. E pensando nas dificuldades que aquelas instituições têm, eles começam a bolar, com a sua criatividade e a sua liberdade, um pequeno projeto – muito simples, evidentemente – para tentar atacar e ajudar a dirimir, a diminuir, ainda que parcialmente, a dificuldade que a aquela instituição tem. Só exemplos: eles ajudam a arrecadar – depende, obviamente, da instituição – mas eles ajudam a arrecadar produtos de limpeza, brinquedos, fraldas geriátricas, às vezes ajudam a organizar um bazar, um sebo, às vezes ajudam a pintar salas, eles estão à disposição daquilo que a entidade, a associação disse para eles. Depois eles fazem uma apresentação final para todos os outros colegas, dizendo as suas reflexões, dizendo o que eles viram, apresentando a instituição, o valor deles, e fazem uma reflexão pessoal sobre isso. Isso é o relato do que está acontecendo.

O que eu acho significativo, em relação à questão do bem comum, em primeiro lugar, é que esse trabalho – e isso é muito evidente, eles sempre falam isso nos trabalhos, quando eles apresentam – abre o horizonte deles. Porque eles começam a identificar, em primeiro lugar, que existe na realidade uma série de instituições que são exemplos de caridade, que silenciosamente ajudam no desenvolvimento social da nossa cidade, do nosso Estado, do País. Silenciosamente porque tinham muito conhecimento de que isso existia. E ao contrário, temos a mentalidade de delegar tudo para o Estado, então quando encontram uma realidade que faz isso, eles falam: “Puxa, existe! E que bacana! ” Então essa é a primeira constatação: alarga o horizonte deles, alarga a razão deles, ao ter contato com a realidade. A segunda é o fato deles entendem que esses espaços oferecem, para as pessoas que eles atendem, um serviço muito mais humano e completo do que o Estado seria capaz de oferecer.

Então eu conto só um pequeno exemplo de um testemunho que um aluno deu em junho agora, três meses atrás, quando ele fazia uma apresentação do trabalho dele. Ele fez o trabalho em uma instituição que oferecia atividades culturais, esportivas, no contra turno escolar, numa favela de São Bernardo. Ele participou ali e ao final do trabalho, quando já tinha terminado a apresentação dele, já tinham batido palma e tudo, ele pediu a palavra: “Professor, eu posso falar uma coisa minha, que está me remoendo desde ontem à noite? Eu queria falar”. Como tinha tempo ainda, eu disse: “Pode falar”. Ele tem 19 anos, mais ou menos, está nessa faixa etária. Ele falou: “Eu jogo badminton, eu fui convocado pela Seleção Brasileira Júnior de badminton”; e ele foi treinar e conheceu, na Seleção Brasileira, um outro rapaz que morava no Rio de Janeiro, e que foi convocado junto com ele. Isso faz uns três anos, ele contava. E quando ele o conheceu, o rapaz dizia para ele que quando era pré-adolescente morava numa favela do Rio e trabalhava para traficantes na favela – eu não me lembro agora qual era a favela, o aluno até citou, mas não lembro mais. E o menino relatava para ele, para o meu aluno, como tinha sido bom ele encontrar uma instituição dentro daquela realidade, que parecia não ter saída, e oferecer para ele uma série de atividades. E ele falou: “Deu tão certo, eu me encontrei tanto que estou aqui na Seleção Brasileira Júnior”. E eles ficaram amigos, se relacionaram durante dois anos. “No ano passado”, ele conta, “eu perdi contato com ele e fiquei sabendo que esse menino acabou voltando para o tráfico”; quer dizer, não conseguiu se manter, se segurar ali, então voltou para o tráfico. “E ontem à noite” – o meu aluno contando – “quando eu estava terminando os detalhes da apresentação final, eu recebi uma mensagem informando que esse menino foi morto numa operação das Forças Armadas lá no Rio”, em algum embate com os traficantes ele acabou morrendo. E eu achei um juízo muito interessante, porque eu já estava esperando o menino dizer: “Está vendo, acho que não deu certo, deu errado, porque o cara morreu”. Ele falou o contrário: “Hoje eu me dei conta” – ontem à noite – “eu me dei conta de como essa instituição do Rio, mais essa que eu visitei, resgata a vida das pessoas. Pode resgatar a vida das pessoas e pode até salvar a vida das pessoas. A gente precisa que essas instituições sobrevivam”. Ele falou desse jeito. Eu agradeci, porque diante de um testemunho desse ele reconhece o valor da dignidade, do bem comum, da solidariedade, quer dizer, ele reconheceu tudo, ele entendeu tudo o que estava ali dentro. Então esse é um primeiro fator, quer dizer, amplia o horizonte deles.

O segundo fator para mim, que é muito evidente, é que eles entendem que o bem comum é um bem e que todos participam. E que você pode participar agora, nesse momento, construindo alguma coisa agora. Não somente quando ele se formar, daqui a cinco anos e obtiverem um diploma e forem trabalhar numa empresa, ou em uma start up. Mas agora, com um projetinho dele que é muito simples, mas que ele já pode experimentar uma coisa naquele momento, ajudando diretamente a instituição, e indiretamente aqueles que a instituição ajuda. E eles falam isso: “Eu fiquei contente de poder ajudar, de fazer parte desse negócio”.

O terceiro fator é essa questão do testemunho, do bem que gera o bem. Ontem à noite falavam que a beleza educa. É bonito ver que vários alunos, olhando para as instituições, para as realidades nas quais estão atuando, vendo o resultado e vendo o trabalho bonito delas, pedem para mim, para a Marli, para serem voluntários. Ou eles se tornam voluntários na própria instituição que eles visitaram, ou de alguma outra entidade. Mas porque aquilo corresponde de uma tal maneira a eles, à exigência deles de bem, de beleza, de justiça, é que eles querem continuar. Então a importância também de um testemunho na vida deles. De olhar e ver pessoas que se doam, que se entregam, que passam a vida fazendo isso. É o menino de 19, 20 anos que quer também fazer parte, quer transformar a realidade. Essas três coisas para mim são muito evidentes quando eles apresentam um trabalho

Mas como que isso também me educa? Primeiro, eu aprendo muito com isso; com eles, com a postura deles, porque o trabalho de professor é sempre um trabalho em relação, também, não só de transmissão de conhecimento, mas de aprender também do aluno, da experiência de vida do aluno. Mas eu entendo também mais duas coisas, para fechar: primeiro, que o bem comum é construído no encontro e no diálogo; que a realidade é plural, que existe uma série de instituições – eles vão apresentando cada semestre uma série enorme de instituições diferentes, às vezes que trabalham no mesmo ramo, mas com metodologias diferentes, que atacam necessidades diferentes. Primeiro que é um desafio, a realidade, mas é bonito que a realidade não seja monocromática, porque valoriza a liberdade de iniciativa das pessoas que constroem a obra, e valoriza a liberdade de escolha de quem eventualmente pode se colocar ali naquela instituição.

Então, primeiro essa coisa da pluralidade e que todos somos verdadeiramente responsáveis por todos, ninguém é neutro. Quer dizer, o impacto que a gente tem, cada um na sua peculiaridade, pode construir o bem comum. Depois, obviamente, em 500 pessoas por semestre, a gente encontra alunos que têm posições políticas diferentes, religiões diferentes, que se declaram ateus, que são indiferentes à questão religiosa… É um desafio. A gente faz uma proposta, mas a gente entra em diálogo. Como que a gente entra em diálogo com eles? Partindo do que a gente tem em comum: do desejo de bem deles. Só assim é possível começar um diálogo com eles que não seja uma imposição sobre eles.

Por fim, uma última coisa que eu aprendo na minha experiência: que o bem comum é construído no amor. A gente realmente não precisa de um Estado que dê tudo para a gente, ou que regule tudo. A gente precisa de um Estado que apoie a iniciativa das pessoas e dos sujeitos sociais na construção do bem comum, porque essas instituições, melhor do que ninguém, sabem quais são os detalhes dos problemas no qual estão envolvidos. E é muito interessante, porque tem uma expressão na Doutrina Social da Igreja que eu gosto muito, que fala: não precisamos de um Estado de regule tudo, mas de um Estado que apoie as iniciativas, porque elas oferecem melhor do que ninguém aquilo que todo homem sofredor, que todo homem necessitado, carente, precisa: a dedicação pessoal amorosa. Dedicação pessoal amorosa. Esse relacionamento, esse encontro com o outro, que o Estado não é capaz de ter. Dedicação pessoal amorosa. Gosto muito dessa expressão porque para mim é o ponto de intersecção da dignidade humana, da solidariedade e da subsidiariedade. Porque, no fundo, o que o homem mais precisa? Obviamente ele precisa das coisas materiais, claro, para ele melhorar, para resgatar a dignidade dele, mas só isso não basta porque nossa necessidade é infinita. O que ele mais precisa é de uma companhia, de alguém que olhe para ele, que resgate, que dê um olhar, que dê um valor, que valorize aquilo que ele faz, que o escute, que faça companhia. Dedicação pessoal amorosa.

Eu entendo, por fim, que é esse amor, esse amor-serviço, essa caridade, é que faz o homem, o ser humano, se mover em direção ao outro e se preocupar de fato com o bem de cada um e com o bem de todos. Quer dizer, com o bem comum. Porque o verdadeiro coração humano não vê cor, raça, religião, diferenças políticas; ele vê uma pessoa que precisa de algo, tem uma necessidade e se move para ajudar.

Fabiano: Obrigado, Rafael, eu lhe agradeço de verdade, em primeira pessoa. Otoney, a gente quer agora entender um pouco da sua experiência e como você tem vivido a construção do bem comum.

Otoney: Eu começo com uma breve apresentação: eu sou Otoney Alcântara, advogado, casado, três filhos. Eu me formei em Direito em 1995. Durante 4 anos eu trabalhei em dois grandes escritórios e depois trabalhei com dois advogados que fazem a chamada “advocacia costumeira”: são escritórios menores, mas com clientes de um certo porte. Com esses dois eu aprendi muito, eram advogados muito hábeis, muito espertos, e um deles, que foi com quem eu mais aprendi, dizia: “Otoney, eu por dinheiro sou capaz de tudo, até de trabalhar”. Mas quando eu recebi essa pergunta, “o que o seu trabalho tem a ver com o bem comum? ”, coincidiu com o fato de eu estar completando 50 anos, que é uma idade em que você se pergunta algumas coisas. Então eu entendi que essa pergunta era uma pergunta real, era uma pergunta para mim. Eu me coloquei essa pergunta como alguma coisa que era decisiva, porque é como se eu tivesse que entender o percurso que eu fiz durante esse período.

E pensando em todo esse meu percurso, eu busquei tirar realmente de dentro da minha experiência o juízo, quer dizer, aquilo que fica. O que ficou, de praticamente vinte e poucos anos de trabalho. Então a primeira coisa que eu pensei foi o seguinte: o trabalho é uma experiência quotidiana, objetivamente de sair de dentro dos meus limites, de sair do meu eu. Porque não interessa tanto o que eu sinto ou do que eu gosto, ou o que eu quero: eu tenho que necessariamente encontrar pessoas. Então é uma relação que tem dentro um sacrifício, a primeira coisa que eu percebo é: tem um sacrifício dentro do trabalho. Porque nem sempre eu quero fazer uma audiência, nem sempre eu quero encontrar aquele cliente, quero discutir aquela situação. Então eu percebo que tem duas questões já aqui: uma questão é objetiva, quer dizer: eu trabalho porque eu preciso; e as condições de trabalho, eu não estabeleço, vêm de fora. Porém, para que eu trabalhe, o meu “eu” tem que se mover, porque ou eu me movo, entro em jogo com aquela proposta que me é feita, ou eu estou destruído. Então tem um aspecto que é absolutamente objetivo e tem um aspecto que é subjetivo. Eu penso que essa experiência é como que universal, porque também um astronauta que está na Lua, que é um lugar que deve ser belíssimo, com o tempo ele também tem que se relacionar objetivamente com aquilo que ele deve fazer. A dona de casa: objetivamente ela tem que acordar e fazer certas coisas. Então me parece que essa experiência do trabalho como alguma coisa que lhe é imposta – não que lhe é imposta, que lhe é dada, melhor dizendo, a palavra é “dada” - e que você tem que entrar em relação diariamente, esse trabalho carrega em si algo de sacrifício mas também um convite para você. Então eu pensei: o primeiro fundamento mesmo, o primeiro valor do trabalho sou eu mesmo, porque todos os dias eu tenho que me perguntar por que é que eu faço aquilo – se eu quero trabalhar de uma maneira que não me destrua. O trabalho faz emergir, primeiro a minha necessidade de manutenção; por outro lado, eu não decido o que eu tenho que fazer. Mas então parece, aparentemente, que eu sou para o trabalho. Mas se você vai mais fundo, na realidade o trabalho é para mim. Por que é para mim? Exatamente porque tem dentro esse convite para que meu “eu” possa criar, dentro de condições que eu não estabeleci. Então eu penso que trabalhar é como um marinheiro que em um nevoeiro tem que conduzir o barco. Pode ter ali uma rocha, pode ter ali uma corrente. O trabalho exige de mim uma tensão, uma humanidade, exige de mim uma abertura para a realidade, que sem ele possivelmente eu não teria, eu estaria em casa, relaxando.

É incrível, porque essa fadiga seja talvez exatamente o bem do trabalho. Porque é essa fadiga que me obriga a me perguntar o sentido do trabalho. Então eu pensava: o trabalho é como criar um soneto, porque o soneto você tem dois tercetos, dois quartetos, e você tem regras para rimar. As regras da rima não é você que as faz - as regras existem. Mas eu posso criar uma coisa belíssima dentro de condições extremamente adversas. Encontrar um cliente que eu não gosto, perder uma causa, perder dinheiro, fazer uma audiência em um outro lugar, tudo isso são os tercetos e os quartetos e as regras. Mas se meu “eu” entra em jogo, eu posso de fato criar. São Tomás de Aquino dizia que é um bem árduo. Ele dizia: “O trabalho é um bem árduo”. Isso não impede que, como tal, ele seja um bem do homem. E é interessante porque não é só um bem útil, não é só porque eu posso usufruir, mas é porque é um bem digno. Ou seja, corresponde à minha humanidade, corresponde àquilo que tem em mim, que não é só natureza. Aquilo que tem em mim que é exigência, que é busca, que é necessidade de crescer. E esse convite ordinário a enfrentar o real, é uma grande possibilidade desse meu “eu” ter que enfrentar, necessariamente, as coisas.

Então eu coloco assim: com o tempo, hoje eu entendo que o mais importante do percurso que eu fiz e continuo a fazer, não é tanto o que eu senti – a alegria, a tristeza, o sucesso, a derrota – mas é a finalidade, o escopo do trabalho. Qual é o escopo do trabalho? Pensando na minha vida, é evidente que tem dois escopos: o primeiro é a minha manutenção e a da minha família; mas também é a minha dignidade, é a expressão do meu eu, como alguém que participa da realidade, criando, plasmando e sendo plasmado por ela. Por isso o trabalho, para o homem adulto, assim como o afeto, são as chaves de leitura da realidade, porque eu acho que uma pessoa que trabalha corretamente tem uma chave de leitura para estar dentro da vida. Porque se você não tem alguma coisa que o chame para o real, nem o cabelo você vai pentear. Muito menos usar a roupa que você vai usar. Então esse convite, essa vocação que o real lhe dá, para o homem adulto passa por essas duas dimensões: o trabalho e o afeto. Elas estão coligadíssimas.

Bom, eu concluo já a primeira coisa. A primeira questão é que o trabalho é um bem para mim. O trabalho é um bem para a pessoa. E que a primeira contribuição para o bem comum é um homem autoconsciente do valor do trabalho. Porque quando você encontra um homem que é autoconsciente do valor do trabalho, imediatamente ele o fascina. Imediatamente ele o coloca dentro da relação com o real de um outro modo. E eu, por graça de Deus, pude encontrar algumas pessoas interessantíssimas assim. Algumas, digamos, parciais. Por exemplo, esses dois advogados a que me referi. Eu, a princípio, queria fazer Filosofia, então eu me preparei para fazer Filosofia e fazer uma carreira acadêmica. Eu fiz um caminho acadêmico muito interessante. Em determinado momento, eu percebi que não teria como sobreviver com a Filosofia. Por uma razão simples: não tinha concurso, não tinha sequer aula no segundo grau. E depois tive uma crise existencial muito profunda e eu disse: “Vou mudar para Direito porque é uma coisa mais prática, eu saio dessas questões que me perturbam tanto e quem sabe até ganho dinheiro” – isso me fez ir para o Direito. Mas eu não tinha, a princípio, uma fascinação pelo Direito, eu não tinha, não era uma coisa que me fascinava. Mas encontrando esses dois advogados, sobretudo um deles, que tinha uma grande capacidade de se mover no real, mudei minha perspectiva quanto ao Direito. Uma vez nós fomos ao Fórum, eu e esse advogado. O funcionário não resolveu o problema e eu comecei a dar uma aula para ele. Falei: “Olha, você, tem que fazer assim, porque o artigo tal diz isso”. Ele me chamou e falou: “Me diga uma coisa: você é um jurista ou um advogado? ” Falei: “Não sei, acho que eu sou um advogado e, portanto, eu sou um jurista”. Ele falou: “Não. Jurista é o cara que explica o Direito. Advogado é quem resolve problemas. Se você cria um problema com esse cara, nunca mais um processo meu vai avante”. Ele era um sujeito de uma habilidade incrível, e era um grande advogado.

Então eu comecei a perceber que existe uma forma de entrar no real. Ele dizia: “Advocacia é ciência, você tem que saber o que você faz; arte, porque você tem que saber se relacionar; e artimanha, porque às vezes você tem que driblar”. Então eu comecei a perceber que um homem assim, um homem que ama o que faz, despertava em mim um interesse pelo Direito, pela profissão.

Depois tiveram outros encontros muito interessantes na vida. Uma pessoa a quem faço referência é Fabrício, porque a maneira como ele trabalha, em uma área completamente diferente da minha, é uma grande ajuda: a seriedade, a paixão, a dedicação, o realismo, é uma ajuda imediata para que eu possa trabalhar. A gente nunca trata de Direito, mas trata do senso do trabalho. Nesse sentido, um homem autoconsciente do valor do que faz, é o início do bem comum. Então a segunda consequência que eu percebi é que o trabalho está diretamente ligado ao afeto vivido de maneira ordenada. Eu sou casado, se eu não trabalhasse eu não teria como sustentar minha família.

Mas a coisa mais interessante, para além do fato que eu sustento a minha família a partir do trabalho, é que eu percebo que dentro do trabalho tem um elemento educativo fundamental porque, por exemplo, um filho que vê um pai que trabalha, de certo modo é introduzido no real. Então esse é um outro aspecto: é um bem para a família, mas é um bem não só material, mas é um bem porque você introduz aquela nova geração diante da realidade.

O terceiro aspecto é exatamente o fato de que eu tenho uma pequena empresa, quer dizer, hoje nós somos cinco advogados, mas há 4 anos éramos doze advogados. Tínhamos crescido muito, era um momento excepcional. No meio de toda a euforia comecei a perceber indícios da aproximação da crise atual e me antecipei. Eu comecei a desfazer o meu escritório. E veja, você de doze colaboradores partir para uma sala só e ficar com três pessoas, meu amigo, não é simples. Realmente foi um momento muito difícil para mim, porque você começa a construir uma coisa, que é expressão de você, e de repente, de maneira abrupta, em pouco tempo, você reduz – eu tive que jogar livro fora, porque não tinha onde colocar. Eu paguei a todas as pessoas com as minhas economias e fiquei com uma pequena reserva. Nessa época uma advogada que ficou comigo – éramos em três – perdeu o prazo de uma ação e eu só tive duas saídas: ou eu enganava o cliente e dizia: “Olha, você perdeu o prazo” (mas nós tínhamos perdido o prazo), ou eu pagava o prejuízo. Eu paguei esse prejuízo, quando eu não tinha quase mais nada. Então foi um momento de uma radicalidade absoluta, porque você fala: “Meu Deus, por que é que está acontecendo isso comigo? Que sentido tem tudo isso? ” Foi um momento realmente de uma dureza que eu nunca experimentei. Mas ao mesmo tempo eu pude verificar aquilo que Carrón falou em uma das Assembleia. Mas você, o que te consiste? Então o trabalho me obrigou, como nunca, a me perguntar isso. Mas você tem uma consistência que não são essas coisas, só que essa pergunta é dramática, essa pergunta é uma vertigem. Eu vivi essa vertigem e digo: recomecei com muita simplicidade, com muita humildade, e hoje, por uma graça de Deus, conseguimos, digamos, reestruturar o escritório, retomando com tranquilidade, com calma.

Então o trabalho, nesse caso a empresa, gera, contribui para o bem comum, primeiro porque ela responde às necessidades de algumas pessoas. E responder com honestidade também é muito interessante, porque eu poderia ter enganado esse sujeito, mas não enganei a ele. Depois fiquei “Será que fiz o certo? ” Mas eu entendo hoje que foi a coisa mais correta, porque eu tenho uma responsabilidade diante daquelas pessoas. Então respondo, mas respondo olhando aquele cliente, mesmo que ele não tenha se dado conta daquilo que eu fiz. Depois você gera postos de trabalho, que não é uma coisa qualquer. Depois você gera know-how, você gera o “como fazer”. Do meu escritório já saíram juízes, advogados, delegados, promotores, todos que foram estagiários ali.

Agora na Copa do Mundo, um que é juiz, que está no Maranhão, veio para a cidade. Ele assistiu a todos os jogos na minha casa. A mãe ficava chateadíssima! Mas ele dizia: “Otoney, eu venho ficar com você porque eu me lembro do tempo que nós passamos juntos, e eu quero ficar com você”. Então o fato que você gera pessoas, que você contribui com a formação de pessoas. Depois o fato que você devolve o seu sacrifício com os impostos, uma parte você devolve para toda a sociedade, e isso não deixa de ser uma grande contribuição ao bem comum. Depois você gera lucro, que é riqueza. Pouco, mas gera. No meu caso não é tanto, mas gera. É um bem para todos. Então, no final, eu acho que a obra tem uma conexão imensa com a polis, com a cidade: é o encontro com o juiz, é o encontro com os fornecedores, é o encontro com os clientes, é um conjunto de coisas que você, trabalhando, vai gerando frutos; frutos que vão além daquilo que você imaginava e daquilo que você pensava. Então queria dizer uma coisa, aqui: primeiro agradecer à CdO, e a você também, Bernhard, porque muito do percurso que estou falando hoje, eu aprendi aqui. Eu me lembro que quando eu comecei a trabalhar era muito difícil para mim. Essa aridez, eu não conseguia ver o bem. Fui convidado para ler um texto de Dom Giussani, aquele que falava do aspecto do trabalho como aspecto mais árido. Aí eu comecei a saber o que era CdO, isso estou falando de quase vinte e poucos anos atrás – ali eu comecei a entender que tem uma forma de olhar o trabalho como um soneto. Não apenas como uma coisa que o destrói. E depois, quantas coisas eu aprendi nesses fóruns, nesses diálogos, e ouvindo os exemplos. Então eu penso assim, o maior fruto do trabalho é exatamente ter me tornado uma pessoa que, digamos assim, que leva a sério o meu trabalho, que ama o trabalho, que ama minha família e que ama os amigos.



Perguntas e Respostas

Fabiano: Quando preparamos este momento, tanto Rafael quanto Otoney, impactados pela fala de Bernhard, formularam algumas perguntas. A ideia agora, Rafael, é que a gente comece a propor estas perguntas para que o Bernhard possa aprofundar, lembrando que logo após a gente abre ao público.

Rafael: Eu queria começar, Bernhard, partindo de um ponto que você colocou sobre as comunidades intermediárias, sobre a importância delas na construção do bem comum. E que eu, de alguma forma, vejo também no meu trabalho. A gente vê uma vasta rede de comunidades que ajudam nessa construção. Porém – e é uma pergunta que eu queria colocar – me parece que nesses momentos eleitorais, como esse que que o Brasil está passando, estamos às vésperas da eleição daqui a uma semana, parece muitas vezes que há um abismo entre o trabalho que eu faço na minha empresa, na minha obra social, e a política; como se uma coisa não tivesse a ver com a outra, e eu nem uso isso como critério para eu escolher eventualmente o presidente, o deputado, o governador, etc. Como se uma coisa fosse o meu trabalho, o que eu faço, o que eu construo aqui no meu bairro, e outra coisa fosse escolher um presidente que está muito acima. No seu modo de entender, por que acontece isso? Por que a concepção do bem comum parece, nesses momentos, tão esvaziada e ficam prevalecendo as soluções extremistas? E mais, o que me interessa mais ainda: como recuperar essa consciência, sem a gente ficar delegando a tarefa para salvadores da Pátria?

Bernhard: Esse é um problema que se coloca também em outros países. É um fenômeno que nós vemos cada vez mais em toda parte. É um abismo que se abriu há muitos anos, só que agora está se tornando mais visível, porque o desligamento entre a política e o bem comum aconteceu muito, muito antes. E nasce do fato de que cada vez mais as pessoas olharam o seu pequeno horizonte, delegando para a política tudo aquilo que é social, que é solidariedade, bem comum. E agora nós estamos vivendo as consequências disso, porque o Estado não pode criar tudo isso. E, portanto, o Estado está sobrecarregado de tarefas que não pode absorver. O Estado quis fazer isso porque assim ele aumentou o poder dele. Um sintoma disso são todas as promessas que os políticos nos fizeram. Vejam todas as promessas que a política fez nos últimos 20 anos: é patológico, porque é impossível cumprir isso. As pessoas, por comodidade, acreditaram nisso e agora a gente está vivendo as consequências. Eu acho que é necessário ser muito realistas, ou seja, o caminho para recriar uma sociedade civil, que seja realmente civil no sentido de civilização, é muito longo. Apontamos o caminho quando você falou anteriormente da educação, quando falei do interesse pelas novas gerações, ou quando Otoney comentou sobre o sentido do trabalho. E serão minorias, mas eu gostaria de ser muito preciso nisso: minorias criativas, mas não autorreferenciais; minorias que tenham a consciência de criar ambientes novos, relacionamentos novos, em abertura e não em fechamento, porque a tentação nesse momento é de criar ilhas fechadas, onde culturalmente nos encerramos no meio dessa confusão do mundo. Isso é exatamente a negação da criatividade.

Do ponto de vista político, fazemos aquilo que se pode fazer, mas fazer aquilo que podemos fazer já é muito. É preciso fazer aquilo que se pode fazer. A primeira questão que temos na frente é retomar a consciência da responsabilidade sobre nossa própria vida. Eu penso que muitas pessoas, diante desse problema, agora vão ao extremo porque elas levam ao extremo a esperança de que a política possa resolver tudo. Porque agora realmente chega ao extremo a ideia de que é necessário um salvador – e salvador de um lado ou de outro. E diante disso nós precisamos dizer claramente que isso é uma missão impossível, e que a primeira questão é o que nós podemos fazer, pessoalmente, socialmente, associativamente, para fazer renascer algo diferente.

Eu acho que não é possível dar uma resposta muito diferente dessa, porque não existe uma solução política imediata. Porque se eu prometesse para vocês uma solução política imediata, eu cometeria exatamente o mesmo erro que nos trouxe até essa situação, e é necessário sermos conscientes de que a situação é dramática. Eu espero que não se torne trágica, porque ser trágica significa que acabaria mal, acabaria diante do nada. Dramática significa que é uma passagem. Eu acho que é uma passagem dramática. Eu espero que não seja trágica. Mas dramático para cada um de nós, no sentido de tomar consciência do que fazer. Os jovens dos quais você falou que veem isso de forma silenciosa, espero que eles sejam capazes de reconhecer uma estrada para recriar o futuro. Porque essa geração também é geração dos seus filhos, ou seja, dos nossos filhos, que eles tomem consciência de uma coisa, é essa a minha esperança. Se vocês quiserem que eu fale de esperança política, eu digo que esses jovens tomaram consciência de ter como herança uma situação muito difícil, mas eles também têm a consciência de que têm a vocação para enfrentar a realidade e fazem isso com uma simplicidade que muitas vezes me comove, porque eles estão completamente conscientes de que a salvação política não existe. Eles são totalmente conscientes disso. É uma geração intermediária, de 40, 35 para baixo, que erra, que vive ainda do mito político.

Eu reli nas férias e eu aconselho vocês a lerem o livro de Václav Havel, que se chama O poder dos sem poder. E relendo esse livro, eu vi que é realmente surpreendente aquilo que cada um de nós pode fazer, ou seja, que cada um de nós incide muito mais do que aquilo que imaginamos. Um professor, um pai de família incide. Esse livro de Havel é impressionante, eu não sei se alguém de vocês leu. Ele é contextualizado no sistema comunista e fala de um vendedor de frutas que não faz nada, ele tinha na caixinha essa frase “Proletários de todo mundo, uni-vos”. Ele tira essa frase, que é uma falsa crença, e aí ele faz uma revolução. Se nós não redescobrimos – essa foi minha ideia de hoje de manhã, que eu gostaria de comunicar: se nós redescobrimos a incidência que temos pessoalmente, socialmente, nós damos a maior contribuição política que se possa imaginar. Porque é isso que faz, eu não digo a revolução, mas que reforma. Não há nada de mais necessário, nesse momento, do que nos redescobrirmos como sujeito. Vejam que o mundo está cheio de projetos, Estados, Ministérios, todo mundo tem projetos formidáveis, mas onde estão os sujeitos que realizam esses projetos? O problema desse momento é o sujeito. Toda a subjetividade é delegada ao Estado. Isso deixa todo mundo numa situação desagradável.

Por isso a minha esperança é que esse momento nos permita redescobrir a nossa verdade, a verdade da nossa pessoa, porque nós estamos no mundo com uma vocação. Vocação de trabalhar, de criar, de ser fecundo, gerar. É essa vocação humana que nesse momento nós precisamos redescobrir. E talvez Deus permita esse momento de incômodo para que nós voltemos a nos dar conta do porquê nos colocou no mundo. O homem não está aqui por acaso. A nossa vida tem uma tarefa. Para fazer o quê? Para fazer as coisas que passam na nossa cabeça? Não. Mas para gerar, para criar. Essa é a nossa vocação e nós estamos redescobrindo isso porque nós a abandonamos.

Depois, para entrar no concreto, isso quer dizer que numa situação assim tão difícil, uma pessoa escolhe depois, também politicamente, aquilo que aproximadamente – não digo nem que está perto – aquilo que está menos longe. Porque o mais perto nem existe, é aquilo que está menos longe. Mas isso já é muito. Dou um exemplo bem simples. Certa noite eu estava jantando com o Presidente de uma CdO local. Ele me perguntou: “O que eu falo agora para os meus filhos, quando eu voltar para casa, que eu passei mais uma noite fora de casa. O que vou dizer para eles? ” Ele era presidente fazia um ano, não sabia nem o que significava isso. Então eu disse: “Olhe, eu vou te dizer o que faria se fosse você. Essa noite você deve voltar para casa, se seu filho perguntar o que você fez, você tem que dizer: Eu passei uma noite para construir um futuro melhor para você. E eu te pergunto, honestamente, se o seu filho fica mais contente com você porque você fez esse trabalho essa noite com a CdO ou se ele ficaria mais contente se você ficasse com as pantufas na frente da televisão com ele. Você precisa explicar para ele o que você faz. Ou você tem consciência de que o trabalho para a CdO tem essa dimensão, ou é melhor nem fazer. Porque se você faz esse trabalho por fazer, é melhor não fazer; mas se você faz com a consciência de que isso cria um futuro melhor para todos, então isso sim, essa é a consciência que precisamos ter. E se nós tivermos essa consciência, uma consciência assim se dilata substancialmente. Se dilata rapidamente. Sobretudo entre os jovens, porque eles esperam isso. Eles não suportam que alguém fique com as pantufas. Eles querem ver pai e mãe que têm essa dimensão.

Outro exemplo, e depois me calo. Uma mãe tinha um filho que sempre se lamentava com o fato de que ela fazia voluntariado, banco alimentar, sempre reclamava em casa. Certo dia ela soube que na escola o professor perguntou: “Qual é a coisa mais bonita que os pais de vocês fazem? ” E ele disse: “Minha mãe faz o voluntariado, banco alimentar, etc.”. Essa é a verdade.

Fabiano: Primeiro eu preciso só agradecer ao Bernhard porque ele responde às perguntas que eu tenho mas não faço para ele. Eu queria fazer uma proposta para vocês dois e vou confundir aqui a dinâmica, mas eu acho que o Bernhard tocou em pontos de perguntas que a gente já tinha feito. Então a minha proposta é que a gente consiga juntar os nossos questionamentos em uma pergunta mais sintética para que dê a oportunidade de que ele responda de maneira mais ampla.

Otoney: Minha pergunta é a seguinte: a partir desse critério que você colocou, eu queria entrar mais na situação específica do Brasil. Porque eu coloco para você o seguinte: o Brasil tem 30 anos da Constituição de 88, que é um processo de redemocratização; e nós passamos por uma série de dificuldades, mas eu acho que no todo há uma conquista, o País tem instituições que funcionam, o País afastou por impeachment dois presidentes neste período, e o País está funcionando. Nesse momento, o que se percebe é que saímos de treze anos de um governo mais à esquerda (ou queremos sair) e que os partidos mais ao centro não conseguem fazer frente aos anseios do povo, porque parte da população se rebelou com esse modo de governar no qual eles também estão inseridos. Então hoje o que a gente tem, praticamente, é uma espécie de plebiscito, porque, apesar de termos em torno de dez candidatos, o jogo político-eleitoral está se desenvolvendo basicamente entre o representante da esquerda, que eu diria que é a continuação do projeto atual, e o outro candidato que seria exatamente o “não” radical à esquerda, o que é uma tragédia. Eu pessoalmente não me sinto representado absolutamente por nenhum dos dois. Porém, a situação, a real politique, se coloca exatamente assim: a gente precisa votar, porque não votar me parece ser fugir do real – e aí eu já coloco a outra pergunta; perguntei ao meu filho: “Mas você vai votar em quem? ” Ele disse: “Meu pai, são 147 milhões de pessoas no Brasil; meu voto conta o quê? ” Uma questão é qual é o valor do meu voto num colégio eleitoral de 147 milhões. Mas a outra questão, e essa me interessa mais, é o seguinte: no momento em que as eleições caminham para uma espécie de plebiscito - “sim” ou “não” ao PT – como ser sensato? Porque claro que você não vai entrar no mérito, mas como ser sensato, a partir da Doutrina Social da Igreja, da sua experiência?

Bernhard: Bem, não sou um profeta… (risos) A primeira questão é estar consciente daquilo que está acontecendo. E o que acontece? Nesse momento é evidente que a política chegou no final da linha. Significa aquilo que eu tentei dizer antes: toda a esperança foi transferida para o sistema político. Você disse que o Brasil foi redemocratizado; isso é verdade. Porém a democracia não é só a liberdade de escolha: a democracia é antes de tudo assumir a uma responsabilidade pessoal pelo bem comum; porque sem isso a democracia não é nada. Tanto é verdade que dou um exemplo: os partidos não existem mais, na Itália. Isso significa que a pessoa não se compromete mais de uma forma contínua pela causa política. A única coisa que ficou é que a cada quatro anos você escolhe alguém e pelo resto do tempo você fica observando o twitter de um político ou de outro, e sinaliza se o tweet agrada ou não. E ponto. A política voltou a ser o mínimo dentro do aspecto histórico.

Agora, é necessário ter a clareza de dizer que essa situação que você colocou é um dilema, do ponto de vista da escolha. Então a primeira questão é contribuir para criar condições para que esse dilema não se coloque mais. Porque esse dilema é sintoma de uma doença e aí eu tenho que trabalhar para superar uma doença. E a doença é tudo aquilo que nós falamos antes: é a falta de responsabilidade com o bem comum. Portanto, eu preciso trabalhar para que essa doença seja superada. Se você tem uma febre de 40 graus, primeiro eu preciso baixar a febre. Essa é a primeira resposta a ser dada, a mais inteligente. Isso não significa regredir, mas construir, porque se entre nós não é claro que esse é o primeiro trabalho, nós somos escravos dessa situação, não somos nem mesmo livres, mas estamos condicionados por essa situação. A primeira questão é superar o condicionamento desse dilema e nos descobrirmos livres e responsáveis. Porque eu não sou definido por esse dilema, não sou definido pela situação de que há dois candidatos que não me representam. Então eu sou uma pessoa livre e responsável, livre no sentido de que isso não define aquela pergunta no que eu consisto, eu não consisto no fato de que alguém ganhe ou perca, eu tenho uma consistência que vem antes e que tem a ver com o eterno. Responsável no sentido de que eu faço de tudo para criar várias condições para que isso não se repita. Isso é um compromisso que parece pouco, mas o fato de que nós esperamos criar soluções imediatas, significa que nós somos definidos por esse problema. Em 1933, quando Hitler chegou no poder, não havia nem mesmo possibilidade de votar, terminou tudo na ditadura. Isso significa que acabou tudo? Não. Foi feito aquilo que era possível, a condição política pode ser mais ou menos favorável, mas não me condiciona, nós precisamos ter o poder dos sem poderes. Porque sem esta liberdade, não faríamos nunca nada, e sem a nossa liberdade os outros farão desastres. A descoberta da própria liberdade diante de um dilema assim, a primeira questão absoluta para salvar a nossa dignidade; depois, com essa condição nós enfrentamos as situações, mas nesse momento busquemos votar naquele que está menos longe e que cada um vai responder na maneira como conseguir responder a esse problema – eu não vou entrar no mérito de tudo, não é minha tarefa, nem seria capaz disso. Aquilo que mais me interessa é que diante de uma situação assim, a gente redescubra quem somos. Descubramos esse sujeito que tem uma possibilidade de se expressar e de construir também numa condição assim. Porque talvez as condições piorem, talvez elas melhorem, a gente não sabe.

Você disse antes, e foi muito interessante: a situação econômica está em crise, e você agiu como um sujeito livre diante dessa situação, você olhou, você não disse “Meu Deus, agora está tudo acabado”. Não, você agiu, você construiu, respondeu, você fez aquilo que podia. Então diante da crise política é a mesmíssima coisa. Nós precisamos nos descobrir como pessoas livres que, mesmo que a situação seja assim, não estão condicionados por ela. Eu acrescento uma coisa – eu falei antes, internamente: se nós empenhássemos apenas um décimo de energia que empenhamos no momento das eleições políticas, em termos de pensamento, ações, palavras, durante o ano, durante os quatro anos, para construir o bem comum, o País já estaria no lugar, estaria tudo arrumado. Porque durante as eleições tudo se desencadeia, tudo explode, e o que as pessoas fazem? Seu problema não são as eleições, mas o que você faz entre uma eleição e outra. O sujeito responsável não tem o problema somente das eleições, as eleições são um momento importante, mas não é nem o momento mais decisivo, porque se olharmos bem, o momento das eleições depende daquilo que acontece antes.

Vejam, eu tenho uma paixão política, eu estudei Ciências Políticas, mas eu estou convencido de que quem hoje tem uma paixão política, tem que fazer tudo aquilo que nós falamos antes, exatamente porque do contrário a política não vai mudar. A política não muda porque nós elegemos alguém, a política muda se nós recriamos a sociedade. Quem pula esse passo da sociedade civil, inevitavelmente delega tudo ao Estado. É inevitável. De fato, a situação mais dramática é que não existem mais partidos democráticos. Isso denomina o fato de que os cidadãos não estão mais comprometidos politicamente, mas estão comprometidos… não sei como explicar… não a fazer “política”, fazem uma politicagem. É como participar de um grande jogo. Eu não sei como dizer de um outro jeito: a política é decisiva, porque a causa pública, a res pública depende de cada um e a democracia diz isso. Se nós reduzimos a democracia simplesmente a escolher, criamos uma situação complicada. Nós compartilhamos os problemas, causamos os problemas, ajudamos a causar os problemas, porque no fundo, no fundo, nós temos a ideia de que o poder resolve ou pode resolver o problema. No fundo nós temos essa ideia. Mas não é a verdade. Na verdade, pode somente favorecer a solução do problema, mas a solução do problema deve nascer da sociedade civil.

Eu vou dar outro exemplo extremo: imaginem um político equilibrado, muito bom, que raciocina, que conhece a economia, que não faz promessas, um político muito bom, no sentido mais comum da palavra. O que vocês querem que ele faça, se não existe uma economia feita de empresários empenhados com o bem comum, professores que façam boas escolas, obras sociais que funcionam, o que ele pode fazer? Nada! Ele vai ficar ali e o País vai para o outro lado, porque não depende dele. Nós podemos ter os políticos mais iluminados, mas o País poderia caminhar na destruição se não houver uma sociedade civil forte. Sem empresários, sem uma cultura, não vai servir para nada. De fato, Havel diz que o maior erro que se pode cometer diante dessa situação política, quando ela é complicada, é não se dar conta do valor que vem antes da política e que cria uma política séria. Ou seja, quanto mais a política está em crise, mais é importante aquilo que pode regenerá-la, e não trabalhar simplesmente no nível político.

Outro exemplo: se vocês tiverem 40 graus de febre podem pegar um remédio, ótimo, mas isso não vai tirar o vírus que causa a febre, precisa tirar o vírus, a bactéria, não somente baixar a febre. Então o corpo vai ficar curado e será regenerado – isso é uma tarefa muito importante. Para dizer de um outro jeito, diante de problemas políticas eu me pergunto: o que eu posso fazer hoje para que o futuro seja melhor, não só as eleições, o futuro mesmo. De modo racional eu digo: eu faço a CdO; essa é minha contribuição. Depois eu faço outras coisas, mas eu faço a CdO. Eu. Você pode fazer a sua associação, você faz o partido, eu faço a CdO. Estou convencido de que fazendo bem a CdO eu crio um elemento importante para o futuro da Itália. Eu estou certíssimo disso. Do contrário, não o faria. Porque se eu faço uma coisa que não tem um nexo com tudo, eu não faço. Essa é minha contribuição e eu digo publicamente: fazendo a CdO eu faço política, não porque eu faço política: não fazendo política eu faço política. É um paradoxo.

Fabiano: Obrigado! Quero fazer uma proposta: nasceu mais uma pregunta desse trabalho, mas eu queria nesse momento abrir para o público, para entender que tipo de contribuições, de demandas, de provocações vocês têm e a partir do que nascer a gente coloca também o que a gente trabalhou.

Marcela: Na verdade a minha pergunta eu ainda estou formulando, mas eu queria já colocar. Desde ontem eu fiquei pensando um pouco nisso: eu trabalho no campo da cultura, na área cultural e ambiental, onde a maior parte das pessoas não está vinculada a organizações, associações, instituições. Têm os filhos na escola, mas não participam da chamada sociedade civil organizada. Uma coisa que eu vejo que tem acontecido nos últimos 13 anos, no Brasil, é exatamente a criação de muitas associações. Só para dar um exemplo: o acidente da Samarco, uma empresa que derramou lama de mineração em 38 municípios do Brasil, disso nasceram mais de 25 associações de atingidos pela lama. Associações de comerciantes que foram prejudicados pela lama, associações, quer dizer, como uma resposta aos problemas sociais, a criação cada vez maior de entidades organizadas, associações que respondem a problemas específicos. Associações de famílias que tiveram vítimas na BR-040, é verdade, não é piada. Bom. E eu queria entender melhor essa dimensão do bem comum na sociedade livre, vamos dizer. Por isso que é uma pergunta que eu ainda não consigo formular direito, é um incômodo, na verdade, nasce de um incômodo: como é que se dá essa dimensão do bem comum em lugares, em espaços comunitários, que não estão no relacionamento com organizações, mas que vivem em comunidade? As pessoas estão em comunidade, não estão sozinhas no mundo. E eu queria entender essa dimensão da construção do bem comum, da nossa participação no bem comum a partir da relação com a comunidade.

Bernhard: Eu vou tentar responder de forma sintética. Eu vou responder primeiro a segunda pergunta: nós temos as prefeituras, os bairros, onde as pessoas se relacionam e vivem juntas, sem que haja uma organização específica; isso é muito bom. De fato, eu falei: para se associar não deve haver forçosamente uma organização estabelecida, o importante é que o homem viva uma dimensão relacional construtiva. Isso acontece nas pequenas cidades, nas favelas. Não existe uma organização necessariamente, não é necessário que haja uma organização. O importante é que a pessoa viva esse relacionamento, essa socialização construtiva, ou seja, com senso de responsabilidade e de solidariedade. A forma é absolutamente secundária. Na outra questão você listou uma série de nomes de associações que nasceram para resolver um problema específico. Muitas associações nasceram desse modo. Se essas associações têm como finalidade a reciprocidade para se ajudar reciprocamente, isso é uma grande contribuição e, portanto, evidentemente, não há talvez uma incidência que vá além, mas é decisivo para a pessoa que participa e por isso é um grande bem. E junto a isso uma outra questão que tem a ver com a representação, porque cada associação tem um clima, um espírito. Se o espírito da associação é o de levar sempre novas instâncias para a política, se o espírito se concentra sobre uma representação de lobby, no sentido amplo, se se reduz a isso, a associação perde sua incidência social. Eu garanto que muitas associações estão se perdendo porque tem como único escopo a representação política. E o que acontece? Acontece que paradoxalmente, de maneira pior – aquilo que eu tentei falar antes – acontece que os cidadãos pensam que a única coisa que pode salvar o mundo é o poder político. Então a própria associação se esvazia e se torna uma causa do mal que ela quer combater. Esta é a crise da representação que vivemos na Europa de maneira dramática: que a representação se torna não uma consequência, a expressão de uma responsabilidade, mas se torna delegação de uma responsabilidade.

Posso dar um exemplo: no outro dia, uma pessoa filiada à Companhia das Obras escreveu uma carta para um ministro na Itália, na qual disse que tinha sido introduzida uma regra que quer controlar o cimento utilizado na construção de casas, e isso cria uma nova burocracia. Ela escreveu: não se pode controlar isso porque diminui a obra das empresas, cria burocracia. Eu falei: “Porém, nós somos a CdO. Se vocês escreverem essa carta em nome da Companhia das Obras, essa carta deve ter como primeiro conteúdo que nós estamos muito conscientes do problema, de que o problema existe”, que as pessoas utilizam o cimento errado em grande quantidade, para evitar custos usam um cimento que não é tão bom. Se eu sou responsável como associação, como primeira coisa preciso dizer o problema e tenho que procurar uma solução, ou seja, colaborar para solucionar o problema. Segundo: essa solução que vocês estão propondo não é adequada. Terceiro: a gente propõe isso. Se não for assim, não é uma carta da CdO. Não sei se deu para entender. Porque em dois segundos, você esvazia a associação, delegando de novo ao poder. Porquê da próxima vez, tudo vai se tornar sempre um problema político. A coisa mais importante para a convivência humana é a corresponsabilidade. E se isso falta, nós ficamos atomizados. Normalmente, o poder deixado a si mesmo se torna um mau poder, porque não é mais controlado. Então a corresponsabilidade – eu juro para vocês, não tenho nada contra falar com os políticos, falo com todos, falo com quem está muito longe de mim, muito longe de mim, falo também com eles, mas eu falo com eles em nome de uma responsabilidade minha. Não falo pedindo a eles para resolver o problema do mundo.

Nós temos um político na Itália – só para dar um exemplo – que está dizendo “Nós vamos eliminar a pobreza”. É só para dizer para vocês em que nível a gente está chegando. Alguém que diz “Nós vamos eliminar a pobreza” é a coisa mais absurda; mais absurdo que isso não existe. Então vocês entendem que ao falar com uma pessoa assim, eu mostro pessoas que trabalham com a pobreza e aí muda o discurso, porque os coloco diante de pessoas que responsavelmente enfrentam o problema e sabem do que estão falando. E aí a gente começa a falar de verdade de pobreza. Este é o nível ao qual devemos chegar. Isso você só faz se tiver uma experiência de construção de civilização em ato, forte, consciente. Porque devemos ser conscientes, não precisamos somente fazer coisas, mas sermos conscientes do que fazemos. O diálogo é feito também de consciência. Eu tenho a clara consciência de que tudo aquilo que é importante para o homem deve ser construído em nível social e depois a política pode favorecer. Mas a construção, a criatividade, essa geração não é o Estado que faz. Digo também uma outra coisa – desculpem se tomo mais tempo, precisamos entender a causa do problema, que é “como” viver assim. Por que o individualismo cresceu tanto? Porque quando se tem a possibilidade material de se ter uma vida individualista, é a coisa mais cômoda que existe, porque relacionar-se é um compromisso. Qualquer relação é um empenho, é um compromisso, tira você do lugar, pede para você entrar em jogo, pede sacrifício, pede para mudar, pede para trabalhar, pede tantas coisas! A relação é algo incômodo. Mas se você não vive a relação, você nunca estará satisfeito com nada. Então uma vida feita assim empobrece o homem a partir de dentro. De fato, ele não é mais nem capaz de tomar consciência de si mesmo como sujeito. Porque quanta inconsciência e quanta ignorância existe!

Então como é possível votar em certas pessoas? Vocês já se perguntaram isso? Como é possível votar em certas pessoas? Quer dizer que quem vota em certas pessoas não tem sequer a consciência do que está acontecendo. Porque o problema não é um político estranho que se apresente, o problema é quem vota nele. O problema é quem vai atrás dele. Nunca é a pessoa que faz, mas é quem vai atrás dela. Porque se as pessoas não forem atrás daquela pessoa, ela não vai ter poder nenhum. Ele tem poder porque tem gente que vai atrás. Então se alguém vai atrás é porque falta consciência, tem um nível de ignorância. Esse é o problema. Porque se certas pessoas estão no poder é porque alguém votou nelas. E porque essas pessoas foram votadas? A causa é a comodidade do individualismo. A vida assim fica mais fácil, a falta de empenho. O sujeito insatisfeito se torna pretensioso, porque se você está enjoado da vida, você pretende que outras pessoas resolvam os seus problemas afetivos, emotivos, sociais, então o mal se multiplica se você está entediado com a vida. Porque a única coisa verdadeira é uma pessoa empenhada com a vida. Isso incomoda.

Então nós precisamos testemunhar que vale a pena empenhar-se, que é bonito fazer isso, que é difícil, mas é bonito. Que você não dorme de noite, mas você está contente. É isso que é necessário, e assim um país muda. Porque a questão, a causa… é preciso apontar a causa do problema, e a causa é essa. Uma associação não é algo cômodo, não é cômodo fazer a CdO. Requer empenho, requer imaginação, requer tempo que é dado, ouvir uma pessoa que o incomoda… Tem sempre coisas bonitas, mas a gente não pode esconder que existem também coisas que pedem muito sacrifício. Mas quando você vai dormir à noite, você está mais contente. Porque quando você à noite passou por um jantar muito complicado, mas você construiu um pedaço de um mundo novo e em vez de ir dormir reclamando da política, de que isso não funciona nem aquilo e eu sou uma vítima de tudo... ir dormir como uma vítima, tudo bem, mas talvez exista algo mais bonito. Porque lamentar-se é muito fácil, construir é difícil. É necessário, é por isso que é necessário uma relação estável porque isso mantém um compromisso, senão você não conseguiria fazer. É só a relação estável, contínua, que o mantém acordado e que coloca na sua frente o fato de que é bom empenhar-se e ver o fruto de um empenho. Sozinho você se abandona a si mesmo, cedo ou tarde você vai embora.

Fabiano: Mais alguém?

Tomazo: Bom dia Bernhard! Sou italiano mas vou fazer a pergunta em português, acho que é mais fácil traduzir para todos. Meu nome é Tomazo e eu agradeço por tudo o que está contando aqui para a gente hoje. E também queria lhe fazer uma pergunta pessoal, digamos, porque dá para ver que você está mostrado para a gente qual é a causa raiz da situação em que estamos hoje. Que não é só a nível Brasil, mas mundial, digamos. E é um problema humano, ou seja, esse ponto que você está colocando, de ficar dentro da zona de conforto, e ficar numa situação de individualismo, que se dá geralmente também com o crescimento econômico, com as soluções fáceis, digamos assim, que o dinheiro, o desenvolvimento pode trazer na vida de cada um. Então eu queria lhe perguntar como você – se puder contar para a gente um episódio, não sei se um caminho na sua vida – se deu conta desse aspecto, ou seja, houve na sua experiência pessoal um momento no qual virou a chave e conseguiu começar a entender esse ponto, ou foi fruto de um caminho no dia a dia? Eu tinha essa pergunta porque entendo que é um ponto de virada pessoal de cada um. Então estou interessado na sua experiência.

Bernhard: Não houve nenhum momento especial, foi um caminho. Mas esse caminho começou com uma pergunta que nasceu em mim quando eu era muito jovem, quando eu estudava num colégio interno. Diferentemente de tantos que falam mal de colégio interno, para mim foi muito bom. Eu entrei lá com 12 anos e passei toda a juventude nesse colégio. Em certo ponto eu fiz essa pergunta: “Como é possível, nessa relação que se vive, não ser condicionado, mas se tornar você mesmo? ” Porque dia e noite você está junto com tantas pessoas – nós éramos 300, era um dormitório 150 leitos com todo mundo junto, era uma vida social muito intensa, digamos assim – e a pergunta se coloca para você. E ali surgiu a pergunta. Eu sempre vivi bem – esse colégio era na Suíça – mas a pergunta se apresentou a mim. Eu li um romance que para mim foi muito importante, um livro de Jean-Paul Sartre. É uma peça de teatro que se chama Portas fechadas. Tem uma palavra-chave ali dentro que diz: “O inferno são os outros”. Ele disse isso substancialmente, porque como existencialista ele dizia que os outros, as relações, criam o inferno. Eu disse: “Isso é verdade. Os outros são o inferno se você não tem a possibilidade de uma relação que o torna livre e ao mesmo tempo capaz de se relacionar”. E ali eu comecei a entender que o cristianismo talvez não fosse a última invenção. Porque para ser verdadeiramente livre dentro de uma relação e não ser condicionado por ela, você precisa realmente, eu não digo só da religiosidade, de uma religiosidade, mas precisa do cristianismo.

Porque a verdadeira razão – agora você me provocou – a verdadeira razão pela qual as pessoas procuram o individualismo como uma zona de conforto, uma zona de proteção, a proteção de um compromisso que fere, é porque as relações ferem, ferem mesmo. É claro que sem o cristianismo o relacionar-se não se sustenta. Porque você precisa ter uma relação que o torna livre, senão as circunstâncias o condicionam, você não é livre. Tanto é verdade que nas sociedades arcaicas, não cristãs, em todas elas as relações o definem. Mas uma vez que entrou o cristianismo, o homem faz a experiência de que é possível viver livremente. Foi feita uma promessa, nós não podemos pensar que saindo da secularização não tenha esse efeito; num certo ponto de vista nós vemos as consequências políticas da secularização – que nós já vimos nas ditaduras, comunismo, nazismo, mas a gente vê de uma forma diferente, mas é a mesma música, composta de maneira diferente, mas é a mesma coisa. O homem não sabe viver positivamente as relações e a responsabilidade porque ele se sente muito condicionado ou muito ferido. Ele não pode ser livre ali dentro. Uma vez que o homem, a história do homem trouxe a possibilidade da liberdade, a história não é mais a mesma. Dois mil anos depois, o homem procura sempre a liberdade. A pergunta é se ele a encontra ali, naquilo que a originou, ou se ele a encontra em outra parte. Em determinados momentos ele a procurou em outra parte. Daí a sociedade individualista, cada um por si, sem compromisso.

Eu descobri que se eu quero me tornar eu mesmo dentro das relações sem que essas relações se tornem alienantes, eu preciso de alguém que me torne livre, ali dentro, de uma relação que me liberte. Eu li muito Marx, porque ele tem razão: a sociedade é alienante se você a vive assim da forma como ela é, é inevitável, vence o mais forte. Os mais fracos são condicionados. Vence o mais esperto, vence o poder. Alguém vence e você está submisso. Mesmo que eles vençam hoje, amanhã estou submisso. É uma guerra. Ele tem muita razão, não só do ponto de vista econômico, mas social, da propriedade dos meios de produção, como ele falava, qualquer relação é alienante. O casamento é alienante, a relação pai e filho é alienante, tudo é alienante, porque tudo me impede de eu ser eu mesmo. Tanto é verdade que a sociedade burguesa inventou a psiquiatria porque é uma sociedade alienante. Porque se eu dependo dos meus pais, eu sou um alienado. Se eu dependo da minha mulher, eu sou um alienado.

No micro e no macro é a mesma questão: existe algo que me torna livre ou não? É por isso que esse momento é tão decisivo para o renascimento do cristianismo de um modo autêntico, porque nos coloca diante do problema. Eu, quem sou, diante do fato de que existem dois políticos que polarizam as eleições e que nenhum deles me representa? Eu, quem sou, diante do fato de que a economia está indo à deriva? E também diante dos problemas sociais que aparecem diante da minha casa, quem sou eu diante do fato de que no centro de São Paulo há 25 mil pessoas que não têm onde dormir? Ou seja, a pergunta é radical. Eu fiz esse percurso. Depois encontrei Dom Giussani. Vejam que a gente pode também citar Giussani. Citar e basta. O verdadeiro problema é se nós nos identificamos com a experiência que ele fez. Esse é o verdadeiro problema. Não que nós citemos, façamos discursos, não, isso pode ser até muito arriscado, porque a gente acha que entendeu mas não entendeu nada. Porque se eu não vivo – e eu tive a sorte de viver essa dramaticidade – se você não vive a pergunta, você nunca vai entender a resposta. E em certo sentido nós estamos vivendo hoje uma grande pergunta e podemos ser facilitados para encontrar uma resposta. Porque estamos feridos de certo modo. Essa ferida deve nos abrir para descobrirmos o que realmente pode nos salvar. Senão, nós vivemos no dualismo, ou seja: tem o mundo político com um certo tipo de salvação e no mundo pessoal… – não, não, a salvação é salvação e ponto. É minha salvação como sujeito deste mundo e ponto, não tem alternativa. Como Bernhard sujeito político, social, como pai, eu sou uno. Eu sou salvo como sujeito ou não. Essa é a pergunta. Depois eu faço escolhas políticas, de trabalho. Não podemos achar que a secularização não deixa o mundo indiferente. O problema é que mude o sujeito humano, porque o cristianismo não é devoção, mas é a constituição do homem novo. Se a minha consistência nasce daí ou não, o mundo muda. Porque a minha subjetividade muda radicalmente. Se a minha identidade é ser de Cristo ou se a minha identidade é uma outa coisa. Mas também um leigo inteligente poderia dizer que isso faz diferença.

Outro dia no aeroporto em Paris, mudando de avião, eu li uma entrevista com Yuval Harari, um cientista judeu, considerado um grande analista dos problemas desse mundo, escreveu um livro sobre os dez maiores problemas do século XXI, ele disse uma coisa que tem a ver, ele diz assim: “Em substância, o cristianismo e o judaísmo não são tão importantes como todos dizem, porque a moral está em outro lugar. A moral existia antes de Cristo e em outras religiões também, sempre houve a moral. Portanto não é assim importante. Apesar disso, a Catedral de Chartre continua bonita”. Quando eu li isso, eu disse: ele pode ser um grande cientista, mas algum problema ele tem. Primeiro: se você vir a Catedral de Chartre e disser que ela é bonita, no mínimo se perguntará quem a fez e por que a fez. Isso é o mínimo, o mínimo que um cientista se pergunta. E se ele fizesse essa pergunta, ele entenderia que o cristianismo não é uma moral, mas é a constituição de um sujeito humano novo. É isso que ou nós entendemos ou nunca entenderemos. Porque o problema da incidência do cristão no mundo não é que faça uma política, mas é que antes de tudo é um sujeito diferente. É uma pessoa diferente. Constitucionalmente diferente. Porque tem essa relação que lhe permite que os outros não sejam mais o inferno, mas que os outros sejam companheiros de caminho, amigos de estrada; e que as tensões, as feridas, que inevitavelmente são criadas nas relações humanas, são salvíficas. Este é o problema. Todo o resto é consequência. Social, política, econômica, familiar, todo o resto é apenas consequência. Mas nós passamos muito tempo olhando para as consequências e demos por óbvio que esse é o problema número um. Por isso muita educação cristã cria sujeitos que não são sujeitos cristãos; cria sujeitos moral e religiosamente condicionados, mas não livres. Porque aquilo que o cristianismo fala é a liberdade.

A pergunta é: eu sou livre ou eu não sou livre? Eu sou capaz de ser eu mesmo dentro e através dos meus limites ou não? Dentro e através dos limites dos outros ou não? E se essa pergunta não encontrar resposta é evidente que a política se tornará salvífica e, portanto, devastadora. Porque num certo ponto o homem precisa ser salvo. Não pode não ser, porque os problemas existem, então quem resolve os problemas? A política. Então nós damos ao poder humano – ao lado da política tem também a ciência, a tecnologia, existem muitos salvadores ao redor, mas estamos falando da política. Você vai delegar sempre para alguém a salvação. Mas onde você está? “Onde você está, Adão? ” Esse é o problema: eu existo ou eu não existo? Eu, Bernhard, dependo do fato de que vença este ou aquele candidato na eleição? Eu dependo da ciência? Dependo da ciência? Dependo do quê? Quem sou eu? Ou seja, nós dependemos realmente das condições que outros criam? Eu dependo do fato de que minha mulher, os meus filhos hoje sejam assim? Eu estou falando dos afetos, mas é justamente porque eu não dependo deles que eu posso amá-los, porque se eu dependesse deles, eu não poderia amá-los.

Desculpem se eu insisto, mas para mim esse é o problema, e você perguntou a minha experiência. A minha experiência é essa. E nasceu quando eu estava na escola. E eu fui muito ajudado a ir até o fundo com os existencialistas, li Camus, todos eles, porque tive a coragem de ir até o fundo. Eles não se perderam no moralismo de tantos outros; eles disseram: “este é o ponto, os outros são o inferno”. Veja que uma coisa assim dá um alento, paradoxalmente, porque obriga você a ir até o fundo. Você precisa amar, querer bem. Quem me obriga? O que me obriga a ser solidário? Quem me obriga a fazer certos sacrifícios, se eles não são impostos de algum modo? Como eu faço para não ser alienado fazendo certas coisas de que eu não gosto? Porque de fato é uma alienação. Como Otoney disse, precisa ir no tribunal quando não quer, e fazer tudo aquilo que você falou. Quantas coisas a gente faz em um dia, sem que a gente tenha um ímpeto de deixar tudo. Não, você faz porque tem que fazer, esse dever, por que não é alienante? Por que não faz com que eu seja menos eu? Ou o cristianismo responde a essa pergunta ou ele é inútil.

Então a incidência do cristianismo é nesse nível, do sujeito livre. E a democracia vive de sujeitos livres, tanto é verdade que tem um texto de Ratzinger muito interessante, baseando-se nessa frase que eu li para vocês que diz que a contribuição do cristianismo para a democracia é decisiva. Porque é muito difícil imaginar a democracia sem o cristianismo. Mas não porque diz em quem votar. Quando eu ouço essas coisas, me ferve o sangue. O problema está antes: é a constituição de um sujeito democrático. O cristianismo permite isso. Porque viver a democracia é um empenho, não é uma forma. E se você não tiver um mínimo de relacionamento isso será impossível. Vou parar, senão vou falar demais.

Fabiano: Estouramos nessa manhã todos os tempos que a gente tinha, mas é difícil segurar a vida quando ela acontece. Eu queria acabar este momento pedindo uma ajuda, Bernhard, porque eu particularmente acho que todos nós, a gente ouviu muita riqueza, aqui, de todos vocês três. Eu gostaria de sair daqui com uma brevíssima síntese que nos ajudasse a ter em mente, de maneira pontual, a riqueza desse momento. Sei que peço um desafio, mas se puder nos ajudar, logo após a gente encerra e vai almoçar.

Bernhard: Que cada pessoa se coloque com enorme sinceridade a pergunta: quais são as relações que me ajudam a ser eu mesmo, que me tornam livre? Esse é um paradoxo, porque parece que a liberdade não tem necessidade de relações, mas ao contrário precisa. Porém existem relações que o escravizam e outras que o libertam, e essa é nossa escolha. Cada pessoa escolhe. Acrescentando que o fato de serem livres não significa que sejam cômodas, porque aquilo que nos liberta é sempre desafiador. Se não for desafiador, quer dizer que tem algum problema. Ou seja, uma coisa que não nos desafia em âmbito humano é um problema, não é uma solução. Portanto, a pergunta é: quais são as relações que me desafiam tanto a ponto de eu ser livre?

Fabiano: Muito obrigado! Eu quero só agradecer aos três, porque vivemos aqui uma explosão, um negócio de outro mundo. E não seria possível se vocês não estivessem aqui.

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